terça-feira, 10 de julho de 2012

Wound

Machucam, as palavras doces, o sorriso.
Machuca, a beleza, a ternura pura.
O jeito de andar, o olhar e o cheiro.
E um beijo é quase a morte.

Machuca o jeito que nos viram do avesso.
Que nos amam e nos envolvem.
Que nos plantam memória no coração.
E como conseguem ser tão elas.

A gente tenta viver assim:
como ave ferida que tenta voar,
que sangra, mas se debate inutilmente.
Que tenta fingir que ainda é livre.

Mas, uma vez que flechados,
mas, uma vez que as notamos...
A nossa vida muda para sempre,
porque a beleza fere profundamente.

terça-feira, 12 de junho de 2012

This Time

Às vezes, a flor não se importa com o vaso e a ternura é o prato mais saboroso a ser servido. A chuva vira trilha sonora, suave na janela, enquanto os sonhos acontecem de olhos abertos e sorrir é a única opção. E a valsa pode ser dançada a qualquer som e a passos tortos, desde que haja convite, suave e inebriante quando só se sente o coração bater.

A sinfonia sem maestro que toca ao ritmo desse metrônomo descompassado se chamar amor. Composta por instrumentos peculiares, é verdade, numa peça em que só dois são convidados a participar. E nela cada nota é tocada suavemente no corpo do outro, de olhos fechados, sem precisar de partitura. Todo improviso é bonito, e a sintonia nunca deixa a música desafinar.

Enquanto lençóis ficam amarrotados e as velas queimam lentamente. Enquanto a camisa manchada de vinho repousa sobre a cadeira e a bolsa aberta esparrama seu conteúdo esquecida sobre o sofá. Enquanto as paredes ocultam o mais belo segredo e a lua se enche para engrandecer a noite e um sapato ficou à porta enquanto outro está debaixo da cama, os enamorados se redescobrem, não pela primeira muito menos pela última vez.

Mas é como se fosse ambas. Porque a música segue e os corpos se buscam. E dessa vez os olhos não mentem. O beijo na testa antes do adormecer fala mais do que qualquer diálogo. Ali, postos um diante do outro, não basta o encontro físico: ainda sonharão um com o outro. Porque este é o momento e a vez de eternizar o amor.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

The Sound of Silence

Ele estava sentado só, compenetrado em sua composição, copo de whiskey do lado. Ela chegou quase despercebida, fazendo carinho nos seus ombros, com intenções dúbias. Gostava mesmo de provocar, e tentava chamar atenção. Mas era uma concentração quase impossível de quebrar, e ele tentava ignorar enquanto as provocações aumentavam. Ela sussurrava no seu ouvido, com voz gostosa e com cada vez meno pudor. E uma mordida sutil na orelha o fez parar de disfarçar e entregar os pontos.

Quando ele se levantou, ela retrocedeu fugindo do seu toque. Rindo como menina, se jogou na cama, só de camiseta e calcinha. Sutiã já tirado, a marca das pontinhas dos seios sobressaindo-se à camiseta. E, naquele emaranhado de cobertores e travesseiros, ele se perdeu. Não dava mais para contar o tempo, e as palavras nem precisavam mais existir. Os diálogos existam no olhar, nas bocas que se encontravam e nos pelos que arrepiavam.

Então, no fim das contas ela adormeceu. Ele ficou lá assistindo, e seu braço formigou sob o pescoço dela. Pensamentos iam e vinham, enquanto assistia àquele rosto angelical tranquilo, embalado nos sonhos e ele parecia mais nem existir. Então era hora de puxar delicadamente o braço, cobrir a garota e voltar para sua composição.

Serviu mais uma dose no copo. Pegou mais uma folha em branco. O que viria pela frente?

A memória ainda o arrepiava. Ele voltou ao ponto de partida. Esperando se haveria algum sussurro em seu ouvido mais uma vez.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

The Lemon Song

Ela estava deitada na cama nua, solitária, louca de desejo. As pernas se contorciam enquanto apenas um fino lençol branco cobria seu corpo. Fazia frio, mas ela fervia, e seu movimento na cama fazia o lençol deslizar vagarosamente, deixando um dos fartos seios à mostra. A parte de baixo do tecido ia enrugando até se juntar entre suas pernas, e mesmo com tão sutil peso, o atrito com sua genitália já era o suficiente para arrancar gemidos. Ela desliza as mãos suavemente pelo corto e fecha os olhos, desejando contato. Encosta uma das pernas na parede e se revira, tentando recuperar o controle.

Respira fundo.

Voltando a si, vai para o banho esfriar o desejo. Lava-se com cautela sentindo o aroma daquele sabonete gostoso, e sua pele passa a ter aquele cheiro. Veste-se com todo muito zelo, colocando cada peça com calma e imaginando como elas seriam retiradas no desespero do ardor. Ela ainda não acabou os rituais de se aprumar quando a campainha toca. Está atrasada, mas não se importa... Destranca a porta, aparece com a cabeça e diz para ele que entre. Antes que ele chegue perto, volta para o quarto. Que espere.

Quando sai, cheirosa e deslumbrante, o desejo arde em ambos. Ele segura forte no pescoço dela, enquanto dão um beijo intenso. Os dois corpos se pressionam e entram em atrito, mas eles querem fazer o jogo direito. Há uma garrafa de vinho especial, que ele abre enquanto ela pega as taças. Ele observa as curvas delas se desenhando por baixo daquele vestido branco. Quando ela dá uma leve abaixada, o delírio é grande. Quer puxá-la pelos cabelos, ver seu corpo nu e beijar sua nuca. Precisa sentir a maciez dos seios dela em seus lábios, enquanto o ar foge de seus pulmões. E sentir suas mãos deslizando pelas coxas, indo de encontro à roupa íntima dela. Tentar adivinhar a cor que não vai importar na hora em que estiver despindo peça por peça, devagar para aumentar o desejo, mas desesperado para pecar.

Ela chega mais perto, com as taças. Provocante, quase encosta nele, cheira seu pescoço e deixa as taças sobre a mesa. Ele serve, enquanto ela deixa a parte de cima do vestido escorregar um pouco para valorizar o decote. Solta um olhar provocante, enquanto pega sua taça para brindar. Os dois corações estão acelerados, e a força do desejo dos dois não combina com a delicadeza do vidro que seguram. As taças se encontram, o vinho cataliza ainda mais o desejo. E a noite segue seu roteiro, em uma voraz e deliciosa degustação.

terça-feira, 20 de março de 2012

Love

E nasce uma afirmação que, de tanto repetida, vira senso comum. As pessoas começam a desacreditar que exista uma bênção como o amor, e, de tão mistificado, muitos desistem de buscá-lo, passando a banalizar este sentimento. O amor vira nada menos que mera palavra, e acreditar nele vira ofensa a quem hoje em dia sequer pensa em viver algo tão grandioso. A tendência é mais acentuada na metrópole, onde ninguém tem tempo nem paciência para nada, e procura a salvação nos relacionamentos intensos e descartáveis, o que funciona perfeitamente em diversos casos. Mas isso não prova a inexistência do amor.

Na verdade, o amor tem muito mais provas de existência. É aquele tédio de fim de tarde, é aquele vazio em uma noite de inverno. é o coração palpitando por uma bela desconhecida, é aquela sensação ao acordar de que tudo pode acontecer. É cada dor de cotovelo que a vida traz. O amor é algo tão transcendente que se manifesta até na forma de desconfiança em sua própria existência: há quem refute em acreditar nele por medo das consequências do amor. Porque ele pode não ser recíproco, ser platônico. Ser idealizado.

E quem, a não ser que tenha falhado no amor ou perdido alguém amado, já reclamou de ter vivido um amor na vida? Talvez o amor seja a instituição mais caluniada do mundo. Mais maltratada e, mesmo assim, ainda é a melhor das coisas. De suas consequências é que muitos nascem, e envoltos em sua aura é que muitos amadurecem. O amor embriaga, deixa leve. O amor fortalece, nutre sonhos. E, sim, invariavelmente ele acaba.

Encontrar um amor é ganhar na loteria. Entre milhões de pessoas no mundo, entre tantas possibilidades, de repente nasce uma conexão única, uma fagulha tão intensa que um pedaço de você se transfere ao outro. E isso é irremediável, irrecuperável, mas totalmente compensado em forma de boas e exclusivas memórias. Deve-se saber aproveitar, pois muito se reclama e pouco se ama. Mas sim, o amor existe.

É muito simples em uma tosca afirmação matar e enterrar o amor. Ridicularizar o conceito. Porque o amor é bom demais para ser verdade. E quem já sofreu dele pode pregar suas mazelas como um sacerdote do culto anti-erótico. Pode tentar se transformar em fria rocha para nunca mais ter nenhuma perda, esconder-se no orgulho e em sua pose de superior a tudo isso.

Mas para amar, precisa ter humildade. Precisa saber ceder e perder. Precisa saber chorar de vez em quando e admitir que pulsa um coração com fraqueza. E nunca, nunca deixar de persistir. Porque o amor parece historinha de conto de fadas. Mas ele é real. E, para sobreviver em meio a este turbilhão que devasta vidas, é preciso ser forte. Além de, claro, parar de repetir certas asneiras que dizem sobre ele.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Perfect

Um fio de memória vai percorrendo lentamente toda história vivida. Do final feliz ao começo radiante. E quando chega ao primeiro ponto, é inevitável que se sucumba um pouco. O pensamento não-linear é uma roleta-russa que nos pega de surpresa em momentos inesperados, e, então, ao acordar, um vazio toma o peito lembrando dos dias mais gostosos em que se sonhava abraçado e nada abalaria aquele sutil e suave amplexo.

Foi bom sonhar e viver provido de tal certeza, certeza que não mais existe no futuro, mas sim no pretérito perfeito. Certeza que já alimentou meu coração nos dias mais obscuros e hoje não é mais recurso, é apenas memória. E ficam as lembranças dos lugares fantásticos, dos diálogos, das refeiçoes maravilhosas que dividimos. E todo cuidado e preocupação que dinheiro nenhum paga.

Mas é hora de deixar tudo ir.

A gaiola se abriu e o pássaro voou. E assim deve ser o amor, livre para voar sem asas podadas. Sem feridas abertas. Voar para que se encontre um ninho mais confortável, para que migre e encontre novamente todo calor que se precisa. E de coração desejo que voe bem alto, que seja o pássaro mais belo e líder do bando. Só posso querer coisas boas.

Porque foi tudo perfeito. Do começo ao fim. Do primeiro ao último beijo. Dois como um pássaro belo que canta alegremente. Perfeito.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

And I just can't tell just what tomorrow brings

O cheiro da grama verde vinha junto com a alvorada, e aí abria-se um mundo com árvores de amora para subir, gado pastando tranquilo e um riacho cortando a pequena propriedade. A água fresca convidava a molhar os pés, ou às vezes até a se banhar naquela pequena e rasa correnteza. A vida já foi assim: comer o ovo que a galinha acabou de botar e montar no pangaré enquanto ele espantava as moscas com o rabo, não sem antes passar pela estradinha de terra que dava acesso àquele cantinho tão especial.

E o mundo girou.

De repente, uma terra de subidas e descidas. Totalmente estranha, com pessoas diferentes. Uma mudança às pressas, notícias tenebrosas no noticiário e, enquanto o repórter relatava o ocorrido, via-se ao fundo o pequeno estabelecimento de nome inconfundível. Foi a primeira visão de onde passaria vários anos, atrás de um balcão fazendo contas atrás de contas. A noção de trabalho veio cedo, junto com pequenas atribuições que foram virando responsabilidades cada vez mais pesadas. O aprendizado do comércio, de evitar a malandragem dos outros, de pensar rápido e solucionar problemas. De lidar com gente mais velha e menos responsável que uma mera criança.

E o mundo deu mais uma volta.

De repente, agora eram as atividades domésticas. As brigas em casa por tarefas simples. A conquista de se fazer cada refeição, de saborear um delicioso prato que nunca pensou ser capaz de fazer. A alergia ao pó. A roupa amarrotada. A vontade de mudar, os planos que nunca realizaria, o sonho de vida que mudaria. Uma paixão nova, música para os ouvidos. Acordes de guitarra, baterias, sons ensurdecedores. O pequeno conservatório de música, as grandes lições, a primeira vez no palco, o show inesperado, os aplausos.

As cortinas fechadas.

De volta ao balcão, desta vez balcão de bar. O testemunho dos bons e também dos catastróficos resultados da bebida. A vida difícil, sem hora pra sair. As noites quase não dormidas, a malandragem como cliente. As novas lições passadas por pessoas humildes. O fogo quente, o óleo quente, a pilha de louça cheia de gordura. Sem tempo para comer com fartura de alimentos. As caixas pesadas, a cerveja quente, a cerveja congelada. A porrada na cara, o pivete que levou suas coisas. O amor de pai, mãe e irmã. As brigas em família e as diversas superações. A prova que decidiu tudo.

O caipira na cidade grande.

A paixão: aquela avenida. O boteco de calçada. Mais noites sem dormir. Fins de semana nos livros, muita cafeína. Uma partida dolorosa que rendeu o mais gostoso retorno. As novas paixões. As letras. As viagens em grupos. Os vários livros iniciados. O primeiro salário. O segundo emprego. Várias brigas e reconciliações. O desespero. A carga pesada, o desânimo. O pedido de ajuda que mudou tudo, que sem pensar em lucros trouxe a maior recompensa. Os olhos verdes.

O discurso.

Sentir uma presença mesmo distante. Ganhar uma alameda inteira de presente, e de brinde um colo macio para deitar. Aprender muitas coisas novas sobre a vida. Apreciar a chuva. Fazer planos para esta noite, para o próximo feriado, para uma década. Sonhar com pessoas que não existem. E os novos sabores que chegaram, com o prazer de ser criança novamente. A simplicidade que a vida tem, poder conhecer o mundo, se maravilhar e mesmo assim querer voltar. Trazer várias recordações, não ter palavras para descrever como a vida é bela, até que outros aspectos da vida exigem novos planos. E de repente traçar metas de mãos dadas, apenas aguardando: quando este vento soprar, é bom estar de malas prontas.

Porque o mundo nunca vai parar de girar.