Meu coração parece que
se encheu de hélio e voou.
quarta-feira, 15 de maio de 2013
segunda-feira, 6 de maio de 2013
Primeiro poema do dia
Se me furtam algumas horas de sono,
ao menos presencio belo espetáculo:
a linda aurora do seu despertar.
Na leveza de um riso nasce o dia,
e os olhos me fitam com alegria
e flagrado eu tento disfarçar.
Assumo que seu sono eu velava,
e por mais estranho que pareça,
como conseguiria negar?
Você ri das minhas besteiras,
e me surpreende com um beijo:
é acordado que me ponho a sonhar.
quarta-feira, 24 de abril de 2013
Horizonte
Quem me dera ser astro imponente no céu,
pra ter sua atenção até nos momentos menos brilhantes:
fazer com que pare seus pensamentos ao me esconder,
ou que sorria no pequeno prenúncio da minha chegada.
pra ter sua atenção até nos momentos menos brilhantes:
fazer com que pare seus pensamentos ao me esconder,
ou que sorria no pequeno prenúncio da minha chegada.
sábado, 6 de abril de 2013
Teorema da leveza
A vida pode ser a leveza das palavras. E o pequeno aconchego particular de uma vista bela, uma caneca e uma máquina de escrever. O sabor doce e o calor que toma seu corpo enquanto o horizonte sussurra palavras no ouvido e inspira as pequenas mãos a empurrar as teclas para talhar frases magníficas, letra por letra. As mesmas mãos que sem trabalho nenhum conseguem transmitir tal sensação em pequenas mensagens cotidianas, como se tivessem o poder de nos fazer flutuar com sua delicadeza.
É como a beleza de um por-do-sol: um espetáculo esplendoroso que nos maravilha sempre que paramos para observar. E é na simplicidade que residem os grandes prazeres da vida, na nossa capacidade de amar um céu azul ou simplesmente escutar a sinfonia de uma manhã chuvosa, sob os cobertores. Ou entender o porquê de um copo americano, de uma mesa na calçada, de pequenas sensações e experiências que, de tão corriqueiras, nos fazem transcender.
Não tem bênção maior do que ser leve, e ter essa capacidade de tirar o peso das coisas em simples toques. Uma leveza tão grande que simples palavras tornam-se feitiços capazes de arrancar pequenos sorrisos no canto de rosto, sutis como suspiros, e que possuem sentido maior que as gargalhadas.
Propositalmente ou acidentalmente, essa leveza cativa e nos conduz como as diversas notas passeando por um jazz improvisado. Um jazz sem pauta mas que é executado em plena harmonia e sem perder o ritmo. Porque a vida não segue regras nem scripts, mas cada capítulo dessa nossa epopeia é orquestrado de forma majestosa sem ter obrigação nenhuma em fazer sentido. Não importa o desfecho, cada momento é único. E que seja sempre leve, permitindo-nos sonhar com paisagens, frases e bebidas, enquanto o pequeno chiado de uma vitrola ainda significar alguma coisa.
É como a beleza de um por-do-sol: um espetáculo esplendoroso que nos maravilha sempre que paramos para observar. E é na simplicidade que residem os grandes prazeres da vida, na nossa capacidade de amar um céu azul ou simplesmente escutar a sinfonia de uma manhã chuvosa, sob os cobertores. Ou entender o porquê de um copo americano, de uma mesa na calçada, de pequenas sensações e experiências que, de tão corriqueiras, nos fazem transcender.
Não tem bênção maior do que ser leve, e ter essa capacidade de tirar o peso das coisas em simples toques. Uma leveza tão grande que simples palavras tornam-se feitiços capazes de arrancar pequenos sorrisos no canto de rosto, sutis como suspiros, e que possuem sentido maior que as gargalhadas.
Propositalmente ou acidentalmente, essa leveza cativa e nos conduz como as diversas notas passeando por um jazz improvisado. Um jazz sem pauta mas que é executado em plena harmonia e sem perder o ritmo. Porque a vida não segue regras nem scripts, mas cada capítulo dessa nossa epopeia é orquestrado de forma majestosa sem ter obrigação nenhuma em fazer sentido. Não importa o desfecho, cada momento é único. E que seja sempre leve, permitindo-nos sonhar com paisagens, frases e bebidas, enquanto o pequeno chiado de uma vitrola ainda significar alguma coisa.
segunda-feira, 1 de abril de 2013
Pedido
Não seja tempestade que afunda meu barco,
tormenta que apavora minha tripulação.
tormenta que apavora minha tripulação.
Tão perto do meu porto seguro,
meu cais com esposas aflitas
que olham para o mar aguardando retorno.
Não seja a carta que me convoca à guerra,
que me troca a família por um batalhão.
Que interrompe meus sonhos com ataques aéreos,
e transforma minha quase-esposa em viúva.
Seja o pára-quedas que abre no último minuto,
o longo caminho de retorno para casa.
Diga sim às chances da vida e sorria,
e seja a marca imortal do herói de uma epopeia.
Ou então a sirene no fim de tarde da fábrica,
que diz ao operário rumar para sua casa.
E, mesmo exausto, ele abraçará sua esposa
antes de colocar sua prole para dormir.
que diz ao operário rumar para sua casa.
E, mesmo exausto, ele abraçará sua esposa
antes de colocar sua prole para dormir.
Só peço que seja o frio no estômago,
a expectativa que precede o clímax.
A intensidade, a positividade, o "sim".
A singular beleza de uma pequena afirmação.
segunda-feira, 18 de março de 2013
Sick Love Song
Contam por aí uma história absurda. Uma história doentia de amor, que parece ser inverossímil. Todos que escutam questionam se isso lá é amor, mas se nem Camões conseguiu definir a palavra, não perderei meu tempo com debates pífios. Este é mais um conto absurdo de uma cidade grande, e qual delas não importa. Existe várias no mundo, e numa delas havia um sujeito que se achava um puta macho alfa, inabalável por qualquer mulher. Daqueles que arrastava quem queria pra sua cama, um canalha de marca maior, o tipo de tratante carismático que deitava e rolava na cama de todas, das mais modestas de beleza às mais deslumbrantes, das mais atiradas às mais relutantes. Também não quero entrar nessa baboseira de karma ou lição de moral. É apenas uma história, que, sinceramente, a graça dela é ser totalmente amoral.
Ele estava entediado. Ninguém topava sair numa segunda-feira à noite, por mais que seja o dia em que as coisas mais acontecem. Resolveu então parar no primeiro letreiro luminoso que sorrisse para ele. Como um velho lobo não precisava de ninguém pra caçar, solitário naquela noite ele uivaria à lua como um ode ao ritual primitivo que era seu motivo de viver. Ele havia nascido para aquilo, fato que foi comprovado no instante em que entrou no bar: todos os olhares femininos, até os das acompanhadas, viraram-se para ele.
Conseguia sentir o cheiro do medo, ele era uma ameaça a todos aqueles cães sarnentos que imediatamente se prontificaram a marcar território. Uns puxando suas garotas para perto de si, beijando-as com volúpia sem saber que naquele beijo elas viam o rosto dele. Já outros, preferiam lançar olhares intimidadores estufando o peito, inutilmente. Um lobo passeia tranquilo e sorrateiro, sem dar bola para os olhos de seus inimigos, mas sempre sabendo a localização exata de cada um. Ninguém conseguiria pegá-lo desprevenido.
Sentou em um canto do balcão e estudou o ambiente. Era um território novo e desconhecido, aprendeu a não se deixar cegar pela própria autoconfiança. Isso havia salvado sua vida várias vezes, e não seria diferente desta vez. Havia várias mulheres bonitas, mas em um dado momento viu de relance a mais deslumbrante do bar. Então todas as outras perderam a graça. O mundo havia ficado cinza e apenas as cores dela existiam. Aqui não faz sentido descrever o processo de sedução, pois foi um como outro qualquer, repleto de clichês, falsos movimentos e segundas intenções. Previsivelmente ele conseguiu seduzi-lá e saíram juntos do bar.
Foram para o apartamento dele, onde a química entre os corpos deles fez com que realizassem as maiores loucuras na cama. Não foi a primeira vez que esbofeteou uma mulher na cama, mas a primeira que ela parecia gostar de verdade. Quanto mais violento ele ficava, mais ela pedia para apanhar, e mordia e arranhava. Arrancou pedaços de pele de suas costas, mas ele não ligava. No outro dia, seu quarto parecia uma cena de crime, não sobrava móveis nem enfeites no lugar. Ele acordou numa ressaca pesada, atrasado para o trabalho, a expulsou de casa sem cerimônia nenhuma e tocou sua vida.
Mas no fim do dia uma tristeza começou a incomodá-lo, como se uma lâmina afiada o houvesse ferido. A princípio parecia não haver ferida, mas quando o delicado corte se abriu, revelou-se como uma profunda injúria que parecia sangrar cada vez mais. Depois de rolar na cama durante horas, ele tomou um táxi e retornou ao bar. A loucura se repetiu naquela noite.
No outro dia, ele não a expulsou. Tão terrível acordada, e tão meiga dormindo. Deu um beijo na testa dela antes de sair pro trabalho. Foi então que sentiu um arrepio na espinha: estava acontecendo. Uma mulher havia domado seu coração, e ele nada sabia sobre ela. Ficou incomodado o resto do dia, sem saber que tipo de desdobramento aquela história poderia ter. Quando chegou, o apartamento finalmente estava arrumado. Nunca havia arrastado um móvel para tirar pó, e agora tudo cheirava a limpeza. Ela estava esperando na cama de lingerie, e tiveram outra noite daquelas.
Na manhã seguinte reparou que ela havia jogado todas as suas roupas fora. Havia camisas e paletós novos, camisetas, bermudas, mas nada escolhido por ele. Começou a reparar que até sua pasta de dente havia mudado, o conteúdo de sua geladeira, e as toalhas tinham iniciais bordadas. Em uma semana a casa estava redecorada, era tudo que ela fazia enquanto ele ia trabalhar, sem imaginar com que meios pagava por tudo aquilo. Então ela começou a ligar 3 vezes por dia para ele, seus amigos já não o viam mais. E ele se sentia sugado, arrastado, mas não tinha forças para sair disso. Apesar de tudo, o sexo era espetacular.
Então um dia seu pau parou de subir, ele não tinha mais pique nenhum e ela parecia cada vez mais sedenta. Ficaram uma semana sem sexo, até que numa tarde ele chegou do trabalho e o apartamento estava imundo, sem vestígios dela. Ele nunca mais ouviu falar daquela mulher novamente, assim como nunca mais teve uma ereção.
Ele estava entediado. Ninguém topava sair numa segunda-feira à noite, por mais que seja o dia em que as coisas mais acontecem. Resolveu então parar no primeiro letreiro luminoso que sorrisse para ele. Como um velho lobo não precisava de ninguém pra caçar, solitário naquela noite ele uivaria à lua como um ode ao ritual primitivo que era seu motivo de viver. Ele havia nascido para aquilo, fato que foi comprovado no instante em que entrou no bar: todos os olhares femininos, até os das acompanhadas, viraram-se para ele.
Conseguia sentir o cheiro do medo, ele era uma ameaça a todos aqueles cães sarnentos que imediatamente se prontificaram a marcar território. Uns puxando suas garotas para perto de si, beijando-as com volúpia sem saber que naquele beijo elas viam o rosto dele. Já outros, preferiam lançar olhares intimidadores estufando o peito, inutilmente. Um lobo passeia tranquilo e sorrateiro, sem dar bola para os olhos de seus inimigos, mas sempre sabendo a localização exata de cada um. Ninguém conseguiria pegá-lo desprevenido.
Sentou em um canto do balcão e estudou o ambiente. Era um território novo e desconhecido, aprendeu a não se deixar cegar pela própria autoconfiança. Isso havia salvado sua vida várias vezes, e não seria diferente desta vez. Havia várias mulheres bonitas, mas em um dado momento viu de relance a mais deslumbrante do bar. Então todas as outras perderam a graça. O mundo havia ficado cinza e apenas as cores dela existiam. Aqui não faz sentido descrever o processo de sedução, pois foi um como outro qualquer, repleto de clichês, falsos movimentos e segundas intenções. Previsivelmente ele conseguiu seduzi-lá e saíram juntos do bar.
Foram para o apartamento dele, onde a química entre os corpos deles fez com que realizassem as maiores loucuras na cama. Não foi a primeira vez que esbofeteou uma mulher na cama, mas a primeira que ela parecia gostar de verdade. Quanto mais violento ele ficava, mais ela pedia para apanhar, e mordia e arranhava. Arrancou pedaços de pele de suas costas, mas ele não ligava. No outro dia, seu quarto parecia uma cena de crime, não sobrava móveis nem enfeites no lugar. Ele acordou numa ressaca pesada, atrasado para o trabalho, a expulsou de casa sem cerimônia nenhuma e tocou sua vida.
Mas no fim do dia uma tristeza começou a incomodá-lo, como se uma lâmina afiada o houvesse ferido. A princípio parecia não haver ferida, mas quando o delicado corte se abriu, revelou-se como uma profunda injúria que parecia sangrar cada vez mais. Depois de rolar na cama durante horas, ele tomou um táxi e retornou ao bar. A loucura se repetiu naquela noite.
No outro dia, ele não a expulsou. Tão terrível acordada, e tão meiga dormindo. Deu um beijo na testa dela antes de sair pro trabalho. Foi então que sentiu um arrepio na espinha: estava acontecendo. Uma mulher havia domado seu coração, e ele nada sabia sobre ela. Ficou incomodado o resto do dia, sem saber que tipo de desdobramento aquela história poderia ter. Quando chegou, o apartamento finalmente estava arrumado. Nunca havia arrastado um móvel para tirar pó, e agora tudo cheirava a limpeza. Ela estava esperando na cama de lingerie, e tiveram outra noite daquelas.
Na manhã seguinte reparou que ela havia jogado todas as suas roupas fora. Havia camisas e paletós novos, camisetas, bermudas, mas nada escolhido por ele. Começou a reparar que até sua pasta de dente havia mudado, o conteúdo de sua geladeira, e as toalhas tinham iniciais bordadas. Em uma semana a casa estava redecorada, era tudo que ela fazia enquanto ele ia trabalhar, sem imaginar com que meios pagava por tudo aquilo. Então ela começou a ligar 3 vezes por dia para ele, seus amigos já não o viam mais. E ele se sentia sugado, arrastado, mas não tinha forças para sair disso. Apesar de tudo, o sexo era espetacular.
Então um dia seu pau parou de subir, ele não tinha mais pique nenhum e ela parecia cada vez mais sedenta. Ficaram uma semana sem sexo, até que numa tarde ele chegou do trabalho e o apartamento estava imundo, sem vestígios dela. Ele nunca mais ouviu falar daquela mulher novamente, assim como nunca mais teve uma ereção.
sexta-feira, 15 de março de 2013
Psycho Killer
O frio na espinha significa alguma coisa. Ela sabe que ele é um psicopata, pois há algo de muito estranho em toda a situação. Não está confortável, mas até agora não houve nada de contundente para fazê-la correr. Imagina que triste clichê: a menina que vive leve, tal qual protagonista inocente de filme B, sendo perseguida por um maníaco que a passos lentos empunha sua lâmina tão fria quanto sua consciência psicótica, e com obsessão calcula o golpe, coagindo-a até onde ninguém possa escutar seus gritos. Esse pensamento a incomoda e a faz ter cautela.
Muita gente passa por aqueles corredores. Determinado, ele vai até o fundo do estabelecimento, pois sabe que lá encontrará o que procura. Agora tudo é diferente, caminha com a perícia de quem já percorreu tal trajeto por diversas vezes. Lembra-se de quando era um amador, e o nervosismo quase colocou tudo a perder, mas por sorte saiu ileso. Ele sorri, pois era um dia de grandes ofertas. Com toda paciência do mundo, escolhe metodicamente qual a vítima do dia. Calcula peso e tamanho, considera todas as variáveis e apenas depois de tudo isso parte pro bote. Seu olhar havia se tornado preciso.
Ela segue sua rotina sem se abalar. Sabe viver sendo imponente, mas a passos leves para não ser seguida. Assim como um grande felino, que tem suas cores e belezas e ainda assim consegue espreitar, desaparecer e subir em árvores. Seus instintos são fortes, e não há predador que seja presa fácil. Ao inferno o psicopata, sua lâmina e seu coração frio. Se algum olhar pousar em suas costas, ela discretamente consegue ver sobre seus ombros e ficar alerta. E ali, com garras escondidas e olhar firme, ela sabe se defender e estraçalhar qualquer um que tente qualquer agressão.
Com a vítima embrulhada, ele espalha suas ferramentas sobre a bancada. Abre com cuidado uma caixa que contém seu xodó: uma faca enorme de lâmina reluzente. Liga uma música feliz, e cantarola enquanto afia a lâmina. Ele quer cortes precisos, quer que a carne não ofereça nenhuma resistência. É nesse pequeno processo artesanal que reside a beleza do que faz, filosofa. Precisa ter firmeza, mas, acima de tudo, tudo precisa acontecer de forma limpa para não estragar todo trabalho que teve até então. Olha de canto para sua vítima, solta um sorriso e seus olhos brilham. Sabia que havia feito a escolha perfeita.
Vira a página do livro e as letras começam a se embaralhar. Já nem lembra mais do pensamento que a incomodava. No fim do dia, o que importa é fechar os olhos e sonhar. Seu pensamento estava distante, sem imaginar o que há alguns quilômetros dali está acontecendo. Ela fecha a capa, coloca sobre seu criado-mudo e apaga a luz. Amanhã será um dia como outro qualquer.
Realizado, ele olha para sua obra. Num pequeno deslumbre de megalomania, considerava aquilo arte. Enche a taça de vinho, sente o cheiro que paira no ar, e, então, um cansaço bom toma conta do seu corpo. Tenso, ele espera pelo julgamento das pessoas. Então eles aprovam aquele maravilhoso corte de contra-filé, preparado com simplicidade mas muito capricho. Sorri mais ainda ao lembrar que fora chamado de psicopata: sua lâmina só tocava a carne já morta, numa devoção nada egocêntrica, e sim ao prazer alheio.
Muita gente passa por aqueles corredores. Determinado, ele vai até o fundo do estabelecimento, pois sabe que lá encontrará o que procura. Agora tudo é diferente, caminha com a perícia de quem já percorreu tal trajeto por diversas vezes. Lembra-se de quando era um amador, e o nervosismo quase colocou tudo a perder, mas por sorte saiu ileso. Ele sorri, pois era um dia de grandes ofertas. Com toda paciência do mundo, escolhe metodicamente qual a vítima do dia. Calcula peso e tamanho, considera todas as variáveis e apenas depois de tudo isso parte pro bote. Seu olhar havia se tornado preciso.
Ela segue sua rotina sem se abalar. Sabe viver sendo imponente, mas a passos leves para não ser seguida. Assim como um grande felino, que tem suas cores e belezas e ainda assim consegue espreitar, desaparecer e subir em árvores. Seus instintos são fortes, e não há predador que seja presa fácil. Ao inferno o psicopata, sua lâmina e seu coração frio. Se algum olhar pousar em suas costas, ela discretamente consegue ver sobre seus ombros e ficar alerta. E ali, com garras escondidas e olhar firme, ela sabe se defender e estraçalhar qualquer um que tente qualquer agressão.
Com a vítima embrulhada, ele espalha suas ferramentas sobre a bancada. Abre com cuidado uma caixa que contém seu xodó: uma faca enorme de lâmina reluzente. Liga uma música feliz, e cantarola enquanto afia a lâmina. Ele quer cortes precisos, quer que a carne não ofereça nenhuma resistência. É nesse pequeno processo artesanal que reside a beleza do que faz, filosofa. Precisa ter firmeza, mas, acima de tudo, tudo precisa acontecer de forma limpa para não estragar todo trabalho que teve até então. Olha de canto para sua vítima, solta um sorriso e seus olhos brilham. Sabia que havia feito a escolha perfeita.
Vira a página do livro e as letras começam a se embaralhar. Já nem lembra mais do pensamento que a incomodava. No fim do dia, o que importa é fechar os olhos e sonhar. Seu pensamento estava distante, sem imaginar o que há alguns quilômetros dali está acontecendo. Ela fecha a capa, coloca sobre seu criado-mudo e apaga a luz. Amanhã será um dia como outro qualquer.
Realizado, ele olha para sua obra. Num pequeno deslumbre de megalomania, considerava aquilo arte. Enche a taça de vinho, sente o cheiro que paira no ar, e, então, um cansaço bom toma conta do seu corpo. Tenso, ele espera pelo julgamento das pessoas. Então eles aprovam aquele maravilhoso corte de contra-filé, preparado com simplicidade mas muito capricho. Sorri mais ainda ao lembrar que fora chamado de psicopata: sua lâmina só tocava a carne já morta, numa devoção nada egocêntrica, e sim ao prazer alheio.
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