Eu estou sentado do chão de um canto de um apartamento vazio, tomando um gole de whisky em uma frasqueira. Sozinho, não há móvel em canto algum. O único som vem da rua, da janela aberta. E a rua não tem movimento, com o céu acinzentado há poucos pássaros a cantar. Ouve-se o vento chacoalhando as árvores, passeando pelas frestas da janela e nada mais.
E por incrível que pareça, isso não é tristeza.
As paredes brancas projetam um destino que nunca chega, um horizonte vasto do deserto que atravesso no momento. Não sei o que vou encontrar pela frente, mas sei que é a direção a seguir. Como um viajante guiado apenas pela bússola, curtindo o percurso na aventura de saber onde isso vai dar. As paisagens no caminho são maravilhosas, mas a poeira irrita e o sol queima as retinas. O tempo e o espaço me guiam, e eu sei que cedo ou tarde, no meio do caminho, aparecerá o que procuro.
Não olho mais para trás. E, de repente, ver tudo que já andei não faz mais sentido. Já tomei as lições que deveria, chegou a hora, de aplicar tudo que aprendi em todo esse tempo na estrada. Mesmo acompanhados, sozinhos somos no mundo, numa caçada pelo que nos preenche e satisfaz. Só cabe a nós essa busca, mesmo que tenhamos sempre com quem contar ou a quem recorrer. Só cabe a nós porque a selva é nossa, e a presa apenas é vista por nossos olhos.
De repente, parece que tudo se deslancha, como o fim de um ciclo, que me recobre de esperança e otimismo. As emoções são fortes, e, antes que as coisas aconteçam, a vida oscila entre positivos e negativos extremos, como um sol intenso que queima forte, mas, ao mesmo tempo, dá espaço para suave brisa que acaricia o rosto e diz que devo continuar seguindo em frente no mesmo caminho.
A verdade é que me perderei por diversas vezes. E, por outras incontáveis, eu hesitarei no meio do caminho, darei passos para trás e ficarei parado no tempo. Concluo que, no fim da viagem, eu conseguirei o que quero. Porque posso desconhecer o caminho e o que vem em frente, mas das minhas vontades eu sei. É o que basta para chegar lá.
Fecho a frasqueira, confiro as horas, apoio os braços sobre os joelhos e deixo escapar um pequeno riso.
segunda-feira, 26 de novembro de 2012
segunda-feira, 5 de novembro de 2012
All my love
Às vezes, a cadeira do cinema ao lado está vazia. Você acorda sem ter ninguém ao lado, o porta-retratos não tem mais aquela foto, os seus planos não envolvem mais ninguém além de si mesmo. Mas, enquanto pulsa um coração, enquanto somos capazes de sentir alegrias e tristeza, desejos e frustrações, e os cheiros trazem memórias e as memórias trazem sorrisos, isso basta para dizermos que o amor ainda existe.
Um laço invisível pode ser o lado bom do seu dia, as saudades supridas podem fazer com que todos seus problemas mais pesados desapareçam como leves balões de ar que se perdem no céu azul de um dia ensolarado. Aquele pequeno pedaço de memória rabiscado num pedacinho de papel pode evocar o que há de mais humano no seu âmago, nostálgico, com uma pitada de dor mais ainda sim algo gostoso.
Como diria a garota, um beijo e um tapa.
O amor não é apenas realizar nossas mesquinhas vontades e ter mimos, e achar que sempre estamos completos. O amor é sentir falta daquele que não pôde comparecer, é dar o ombro quando aparece uma dificuldade, é tomar alguma decisão irracional que vá salvar você da tristeza. O amor é o que nos diferencia, é o que nos faz não querer vingança nem mal-querer. É sentir tesão em servir alguém, pirar no menor e mais sincero elogio, quando o que vale mais é a simplicidade das palavras do que a grandeza dos adjetivos.
É um sentimento tão abstrato que é o mesmo para várias pessoas de diferente importância na vida, manifestando-se em formas peculiares para cada caso. Tão abstrato que quebra os paradigmas de tempo, pois você já pode ter sentido por alguém que hoje é estranho, e, ao mesmo tempo, irá sentir novamente no futuro por alguém que no presente você nem sabe da existência. E não importa que sua pífia sabedoria diga coisas diferentes, ou se seu louco coração faça com que sinta um grande vazio mesmo que o amor cerque você em todos os aspectos. Dele tudo sentimos e nada sabemos.
O amor pode repentinamente retumbar no seu peito, ou apagar como a chama de uma vela se vai em um sopro. Pode cutucar o tédio num domingo à tarde, pode evocar lembranças gostosas quando você colocar os pés na areia da praia. Mas, de tantos mistérios, uma certeza eu tenho: de todo meu amor eu vivo. Pelo que sinto por tantas pessoas, pelo que faço, pela vida. E pelo que acredito.
Um laço invisível pode ser o lado bom do seu dia, as saudades supridas podem fazer com que todos seus problemas mais pesados desapareçam como leves balões de ar que se perdem no céu azul de um dia ensolarado. Aquele pequeno pedaço de memória rabiscado num pedacinho de papel pode evocar o que há de mais humano no seu âmago, nostálgico, com uma pitada de dor mais ainda sim algo gostoso.
Como diria a garota, um beijo e um tapa.
O amor não é apenas realizar nossas mesquinhas vontades e ter mimos, e achar que sempre estamos completos. O amor é sentir falta daquele que não pôde comparecer, é dar o ombro quando aparece uma dificuldade, é tomar alguma decisão irracional que vá salvar você da tristeza. O amor é o que nos diferencia, é o que nos faz não querer vingança nem mal-querer. É sentir tesão em servir alguém, pirar no menor e mais sincero elogio, quando o que vale mais é a simplicidade das palavras do que a grandeza dos adjetivos.
É um sentimento tão abstrato que é o mesmo para várias pessoas de diferente importância na vida, manifestando-se em formas peculiares para cada caso. Tão abstrato que quebra os paradigmas de tempo, pois você já pode ter sentido por alguém que hoje é estranho, e, ao mesmo tempo, irá sentir novamente no futuro por alguém que no presente você nem sabe da existência. E não importa que sua pífia sabedoria diga coisas diferentes, ou se seu louco coração faça com que sinta um grande vazio mesmo que o amor cerque você em todos os aspectos. Dele tudo sentimos e nada sabemos.
O amor pode repentinamente retumbar no seu peito, ou apagar como a chama de uma vela se vai em um sopro. Pode cutucar o tédio num domingo à tarde, pode evocar lembranças gostosas quando você colocar os pés na areia da praia. Mas, de tantos mistérios, uma certeza eu tenho: de todo meu amor eu vivo. Pelo que sinto por tantas pessoas, pelo que faço, pela vida. E pelo que acredito.
quarta-feira, 24 de outubro de 2012
Do you remember
Ela não via beleza. Aquele era o dia mais lindo do ano que passava despercebido. Mas ultimamente, para ela, era sempre assim. Enquanto todos a paparicavam e realizavam seus desejos, nenhum conceito mais se fixava na sua cabeça. Tudo era muito pré-definido, e sua programação a dizia estar agindo certo. Havia todo um roteiro a ser seguido, como sempre há, ou como acreditamos que haja. Mas basta uma virada de pescoço para que tudo mude, e assim a vida se reinventa.
Na realidade, fazia tempo que as coisas erradas a conduziam por um fio tortuoso. E mesmo em meio a tal trama embaraçada, ela não se sentia confusa. Não era capaz de ter dúvidas, de se redescobrir, de amar. Para ela era tudo certeza, as mesmas coisas rolando de um jeito diferente. Os novos personagens fazendo tudo igual, alguns conceitos sempre ditando as regras. Mas beleza não é sempre o dia mais ensolarado e azul. A beleza não é sempre da mesma cor, nem sorri da mesma forma. E, enquanto ela não se lembrar, nada vai mudar.
A vida vai continuar parecendo boa e sem sair do lugar. Tudo pode parecer atraente ao redor, mas não tem nada de espetacular. Ela está entediada, e nada a satisfaz. Nem a cama, nem a bebida, nem os cigarros, nem a alta velocidade de queda quando se joga de cabeça em emoções cada vez mais pesadas e artificiais. Porque nada disso é a beleza. E, nessa busca incansável, ela não consegue se lembrar.
Cada ressaca uma memória apagada. Cada dia ela fica mais distante. Cada moeda contada para comprar um novo maço de cigarro ela perde o ponto. Cada roupa nova, cada maquiagem, cada dieta, cada vez que esconde o rosto.
Ela tem vergonha, e por isso não se lembra.
A beleza é simples como um banho de chuva. É simples como um dia cinza que aparece na janela. A beleza é o que agrada, é o sorriso singelo, é a cortesia, é a simplicidade do amor. No dia em que ela esquecer de todos esses conceitos distorcidos, então quem sabe ela se lembre. A beleza não precisa ser encontrada.
Na realidade, fazia tempo que as coisas erradas a conduziam por um fio tortuoso. E mesmo em meio a tal trama embaraçada, ela não se sentia confusa. Não era capaz de ter dúvidas, de se redescobrir, de amar. Para ela era tudo certeza, as mesmas coisas rolando de um jeito diferente. Os novos personagens fazendo tudo igual, alguns conceitos sempre ditando as regras. Mas beleza não é sempre o dia mais ensolarado e azul. A beleza não é sempre da mesma cor, nem sorri da mesma forma. E, enquanto ela não se lembrar, nada vai mudar.
A vida vai continuar parecendo boa e sem sair do lugar. Tudo pode parecer atraente ao redor, mas não tem nada de espetacular. Ela está entediada, e nada a satisfaz. Nem a cama, nem a bebida, nem os cigarros, nem a alta velocidade de queda quando se joga de cabeça em emoções cada vez mais pesadas e artificiais. Porque nada disso é a beleza. E, nessa busca incansável, ela não consegue se lembrar.
Cada ressaca uma memória apagada. Cada dia ela fica mais distante. Cada moeda contada para comprar um novo maço de cigarro ela perde o ponto. Cada roupa nova, cada maquiagem, cada dieta, cada vez que esconde o rosto.
Ela tem vergonha, e por isso não se lembra.
A beleza é simples como um banho de chuva. É simples como um dia cinza que aparece na janela. A beleza é o que agrada, é o sorriso singelo, é a cortesia, é a simplicidade do amor. No dia em que ela esquecer de todos esses conceitos distorcidos, então quem sabe ela se lembre. A beleza não precisa ser encontrada.
quarta-feira, 26 de setembro de 2012
You didn't mean me no good
Chego em casa puto. A escuridão reflete meu estado de espírito. Abro a geladeira, mas seu conteúdo não dialoga com a minha fome. Saio da cozinha insatisfeito e vou para a sala: hoje meu jantar será servido em um copo.
O aroma que sai da garrafa desperta meus sentidos. Tomo um gole suave que esquenta instantaneamente. Lá fora, mesmo sendo mais uma noite ordinária, tudo parece frio. Meu rosto começa a esquentar enquanto me afundo no sofá, perdido em pensamentos enquanto giro o copo involuntariamente.
Sinto novamente seu peso no meu colo. O copo some, estou jogado depois de um dia duro e você está lá, cheirosa e sorrindo. Meu mal-humor desaparece, seus seios tocando suavemente meu rosto conseguem soltar meus tensos músculos das costas e ombros. Você sabe que assim consegue tudo o que quer, e apenas um membro do meu corpo fica rígido. A resposta é um riso malicioso, uma língua no ouvido, em uma hesitação proposital para me beijar.
É o tempo de eu colocar a mão na sua nuca e puxar seu cabelo com firmeza, mas sem brutalidade. Aí você sente que estou decidido e cede, me beija. Seu corpo é quente, mais quente que o 12 anos, mais perfumado que o aroma que sai da garrafa. E eu quero ele com muito mais vontade, mas vou saboreando devagar o momento. Ainda não me dou ao trabalho de despi-la.
Com leves mordidas em sua boca e beijos suaves no pescoço você geme. Já perdeu o controle, já esfrega seu corpo no meu como se fosse o único jeito de fazer o calor passar. Minhas mãos por debaixo do seu vestido sentem a maciez da sua pele, puxando mais seu corpo contra o meu, como se pudesse haver mais contato do que já existe. Marota, você se levanta com um ar inocente e ao mesmo tempo malicioso, erguendo uma sobrancelha enquanto morde a pontinha de um dedo, rindo.
O vestido toca o chão.
Admiro seu corpo mesmo com pouca luz. Já o conheço de cor, cada pedaço maravilhoso dele, cada curva e cada segredo que ele tem pra contar. Nesta hora, é tudo que eu quero e desejo. Então você puxa minha mão e passa sobre a sua barriga, nem muito para cima nem muito para baixo, para que eu decida onde que elas irão passear a seguir. Eu decido ir para baixo, mas antes que possa sentir o calor que há entre suas pernas, volto a mim.
Estou sozinho na sala. A única parte real do meu devaneio é o músculo tenso no meu corpo. Mas que merda. Nesse frio você esquentaria bem a minha cama. Ou meu sofá. Ou meu tapete. Termino de virar minha janta do copo e praguejo. Eu só tive um dia duro.
O aroma que sai da garrafa desperta meus sentidos. Tomo um gole suave que esquenta instantaneamente. Lá fora, mesmo sendo mais uma noite ordinária, tudo parece frio. Meu rosto começa a esquentar enquanto me afundo no sofá, perdido em pensamentos enquanto giro o copo involuntariamente.
Sinto novamente seu peso no meu colo. O copo some, estou jogado depois de um dia duro e você está lá, cheirosa e sorrindo. Meu mal-humor desaparece, seus seios tocando suavemente meu rosto conseguem soltar meus tensos músculos das costas e ombros. Você sabe que assim consegue tudo o que quer, e apenas um membro do meu corpo fica rígido. A resposta é um riso malicioso, uma língua no ouvido, em uma hesitação proposital para me beijar.
É o tempo de eu colocar a mão na sua nuca e puxar seu cabelo com firmeza, mas sem brutalidade. Aí você sente que estou decidido e cede, me beija. Seu corpo é quente, mais quente que o 12 anos, mais perfumado que o aroma que sai da garrafa. E eu quero ele com muito mais vontade, mas vou saboreando devagar o momento. Ainda não me dou ao trabalho de despi-la.
Com leves mordidas em sua boca e beijos suaves no pescoço você geme. Já perdeu o controle, já esfrega seu corpo no meu como se fosse o único jeito de fazer o calor passar. Minhas mãos por debaixo do seu vestido sentem a maciez da sua pele, puxando mais seu corpo contra o meu, como se pudesse haver mais contato do que já existe. Marota, você se levanta com um ar inocente e ao mesmo tempo malicioso, erguendo uma sobrancelha enquanto morde a pontinha de um dedo, rindo.
O vestido toca o chão.
Admiro seu corpo mesmo com pouca luz. Já o conheço de cor, cada pedaço maravilhoso dele, cada curva e cada segredo que ele tem pra contar. Nesta hora, é tudo que eu quero e desejo. Então você puxa minha mão e passa sobre a sua barriga, nem muito para cima nem muito para baixo, para que eu decida onde que elas irão passear a seguir. Eu decido ir para baixo, mas antes que possa sentir o calor que há entre suas pernas, volto a mim.
Estou sozinho na sala. A única parte real do meu devaneio é o músculo tenso no meu corpo. Mas que merda. Nesse frio você esquentaria bem a minha cama. Ou meu sofá. Ou meu tapete. Termino de virar minha janta do copo e praguejo. Eu só tive um dia duro.
terça-feira, 18 de setembro de 2012
Poison
Pra ser sincero, eu quase não me lembro de nada. Só sei que os ponteiros do relógio não correspondiam ao tempo. E meu corpo meio que se arrastava, devido às poucas horas de sono. Dormia tão pouco e achava que estava me mantendo acordado, mas estar de pé sem alguma lucidez talvez não seja a melhor definição para isso. E eu sonhava. Num delírio que misturava sentimentos bons e maus, que me consumiam mas também me moviam para frente. A dor chegava de um jeito estranho. Estava anestesiado, mas sabia que doía muito. Mas não me cortava. Não sangrava. Calado eu consumia a dor, em vez de ela me consumir.
Várias vezes cheguei a pensar em escrever aquela carta. A carta de louco no manicômio. A carta de quem sabe que a insanidade está se esvaindo lentamente, a cada grão que cai da ampulheta. Um veneno intenso se espalhava pelo meu corpo e mente, a visão ficava turva, mas no segundo seguinte eu voltava ao normal. A angústia de repente era pó, era cinzas que renasceriam, numa ave de fogo gélido que me queimaria por dentro. E o ciclo se repetia por tantas e tantas vezes que eu não conseguia largar a caneta nem riscar o papel. A ponta da caneta fixa espalhava o preto sobre a folha. O veneno. Maldito veneno.
E eu não me lembro de mais nada. Lembro dessa cena se repetindo infinitamente na minha cabeça. Lembro como se fosse pesadelo, algumas partes recobertas em névoas, outras abraçadas pelas trevas. Eu não me recordo de como cheguei aqui.
Eu sei que me levaram entre doses de bebida quente e fumaça de cigarro. Fui carregado nos ziguezagues da rua, derrubado em sarjetas, e escutava vozes e risos. Mas eu não ria, porra. Eu não achava essa merda engraçada. Eu não sabia qual era a piada. Eu só queria parar de suar frio, dar meus próprios passos. Queria que a febre passasse, a temperatura caísse mas não a ponto de eu virar um gélido cadáver entre velas e incensos. Nunca soube rezar, mas tive tantos e tantos diálogos imaginários com algum deus e não lembro de nenhum. Minha vista, meus pensamentos, nada mais pertencia a mim. E os malditos ponteiros do relógio mentiam. A todo o tempo. Os tics e tacs me irritavam. Me deixavam louco.
Mas tudo virou silêncio.
Cheguei aqui. Sozinho e maltrapilho. A sensação ruim passou. Podia respirar leve, podia ver o verde das árvores e sentir o calor do sol. Arrisquei sorrir. Arrisquei cantar. Arrisquei dar um passo e depois outro, e comecei a caminhar. A febre passou junto com os delírios. No espelho, meu rosto era o meu novamente.
Mais uma vez no ponto de partida, tudo voltou a fazer sentido. Não sei quanto tempo passou, ou o que fiz nesse tempo. Só sei que algum ou vários milagres me curaram. Só sei que em alguma hora eu precisei me agarrar a algo e segurei forte. Talvez não tenha sido isso a salvação, mas foi o fio da meada da esperança. Agora eu não sei o que fazer. Não tenho planos e também não me importo. Quero apenas colocar meu chapéu na cabeça e dançar na chuva.
Várias vezes cheguei a pensar em escrever aquela carta. A carta de louco no manicômio. A carta de quem sabe que a insanidade está se esvaindo lentamente, a cada grão que cai da ampulheta. Um veneno intenso se espalhava pelo meu corpo e mente, a visão ficava turva, mas no segundo seguinte eu voltava ao normal. A angústia de repente era pó, era cinzas que renasceriam, numa ave de fogo gélido que me queimaria por dentro. E o ciclo se repetia por tantas e tantas vezes que eu não conseguia largar a caneta nem riscar o papel. A ponta da caneta fixa espalhava o preto sobre a folha. O veneno. Maldito veneno.
E eu não me lembro de mais nada. Lembro dessa cena se repetindo infinitamente na minha cabeça. Lembro como se fosse pesadelo, algumas partes recobertas em névoas, outras abraçadas pelas trevas. Eu não me recordo de como cheguei aqui.
Eu sei que me levaram entre doses de bebida quente e fumaça de cigarro. Fui carregado nos ziguezagues da rua, derrubado em sarjetas, e escutava vozes e risos. Mas eu não ria, porra. Eu não achava essa merda engraçada. Eu não sabia qual era a piada. Eu só queria parar de suar frio, dar meus próprios passos. Queria que a febre passasse, a temperatura caísse mas não a ponto de eu virar um gélido cadáver entre velas e incensos. Nunca soube rezar, mas tive tantos e tantos diálogos imaginários com algum deus e não lembro de nenhum. Minha vista, meus pensamentos, nada mais pertencia a mim. E os malditos ponteiros do relógio mentiam. A todo o tempo. Os tics e tacs me irritavam. Me deixavam louco.
Mas tudo virou silêncio.
Cheguei aqui. Sozinho e maltrapilho. A sensação ruim passou. Podia respirar leve, podia ver o verde das árvores e sentir o calor do sol. Arrisquei sorrir. Arrisquei cantar. Arrisquei dar um passo e depois outro, e comecei a caminhar. A febre passou junto com os delírios. No espelho, meu rosto era o meu novamente.
Mais uma vez no ponto de partida, tudo voltou a fazer sentido. Não sei quanto tempo passou, ou o que fiz nesse tempo. Só sei que algum ou vários milagres me curaram. Só sei que em alguma hora eu precisei me agarrar a algo e segurei forte. Talvez não tenha sido isso a salvação, mas foi o fio da meada da esperança. Agora eu não sei o que fazer. Não tenho planos e também não me importo. Quero apenas colocar meu chapéu na cabeça e dançar na chuva.
quarta-feira, 29 de agosto de 2012
It makes me wonder
Hoje você vai questionar a vida, porque tudo parece torto. Porque suas lembranças estão mais gostosas que o dia de hoje, e nenhuma resposta parece vir há tempos. Hoje, suas horas eram árvores de inverno, secas e sem folha. E a mais leve crítica era vento que roubava o restante de sua beleza. As pessoas passam por você e não reparam, pois não há nada a ser visto. Você é vestígio de vida resumido a quase nada, um objeto quase inanimado que só está em pé por teimosia. E mesmo que as nuvens se abrissem, o azul voltasse com raios de sol e oferecessem todo o calor para que a vida voltasse ao seu corpo, você não aceitaria.
Mal sabe você que, assim que o mundo andar mais um pouco e o inverno passar, voltará a ser bela dama de vestidos sensuais. E em seu corpo que residirá todo o refresco e calor do mundo. Toda a vida e clamor por oxigênio. Porque toda mulher é predestinada a sofrer, embora não seja merecedora. Mas é a mulher que tem o talento de virar o jogo em uma cruzada de pernas. É você que pode ter o olhar mais doce e mais gélido, mas que escolha sempre o lado doce. Só espero que prefira o sonho ao pesadelo, e a ternura tão inocente que cativa mesmo sem propósito.
E eu fico pensando o que é que você está esperando?
O alinhamento bizarro dos planetas, ou talvez o bater de asas de uma borboleta. As areias de uma ampulheta, os ponteiros de um relógio. Alguns dados concretos, ou talvez uma intervenção divina. Ou talvez apenas um motivo para sorrir.
E aqui está ele: um elogio.
quarta-feira, 1 de agosto de 2012
This broken man
Eu sou o sorriso ingênuo da paixão,
que em lençóis puros consolida o pecado.
E que procura na lua uma resposta para o aperto,
mas só acha nela o refletir de um olhar.
E sou o beijo mais sincero e doce,
repleto de vontade e veneração.
A admiração que empresta brilho aos olhos,
o novo cheiro que perfuma seus travesseiros.
Eu sou quem aceita ser torto e quebrado,
quebrado de curvar-se às chances do destino.
Quebrado por ser um sonho que nunca acabará,
mas que por diversas vezes terá gosto de pesadelo.
Eu sou a chuva que inunda os olhos,
as lágrimas salgadas que acariciam o rosto.
Mas nunca deixarei de ser aquela memória boa,
nem me tornarei menos só porque me fui.
Não importa se faço ou não falta,
contanto que na essência eu ainda saiba.
Saiba que sou quebrado e não tenho conserto,
e estarei por aí aos cacos e remendos.
Eu sou o presente tímido dado com sinceridade,
eu sou o beijo de boa noite com sussurros,
eu sou o sonho vivido e prova de sua existência.
Eu sou uma promessa que vai ecoar inúmeras vezes,
até que um dia finalmente se calará.
Mas, mesmo quando o vil momento chegar,
eu serei aquele grande e imenso vazio.
Um vazio como as peças que me faltam.
que em lençóis puros consolida o pecado.
E que procura na lua uma resposta para o aperto,
mas só acha nela o refletir de um olhar.
E sou o beijo mais sincero e doce,
repleto de vontade e veneração.
A admiração que empresta brilho aos olhos,
o novo cheiro que perfuma seus travesseiros.
Eu sou quem aceita ser torto e quebrado,
quebrado de curvar-se às chances do destino.
Quebrado por ser um sonho que nunca acabará,
mas que por diversas vezes terá gosto de pesadelo.
Eu sou a chuva que inunda os olhos,
as lágrimas salgadas que acariciam o rosto.
Mas nunca deixarei de ser aquela memória boa,
nem me tornarei menos só porque me fui.
Não importa se faço ou não falta,
contanto que na essência eu ainda saiba.
Saiba que sou quebrado e não tenho conserto,
e estarei por aí aos cacos e remendos.
Eu sou o presente tímido dado com sinceridade,
eu sou o beijo de boa noite com sussurros,
eu sou o sonho vivido e prova de sua existência.
Eu sou uma promessa que vai ecoar inúmeras vezes,
até que um dia finalmente se calará.
Mas, mesmo quando o vil momento chegar,
eu serei aquele grande e imenso vazio.
Um vazio como as peças que me faltam.
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