Pra ser sincero, eu quase não me lembro de nada. Só sei que os ponteiros do relógio não correspondiam ao tempo. E meu corpo meio que se arrastava, devido às poucas horas de sono. Dormia tão pouco e achava que estava me mantendo acordado, mas estar de pé sem alguma lucidez talvez não seja a melhor definição para isso. E eu sonhava. Num delírio que misturava sentimentos bons e maus, que me consumiam mas também me moviam para frente. A dor chegava de um jeito estranho. Estava anestesiado, mas sabia que doía muito. Mas não me cortava. Não sangrava. Calado eu consumia a dor, em vez de ela me consumir.
Várias vezes cheguei a pensar em escrever aquela carta. A carta de louco no manicômio. A carta de quem sabe que a insanidade está se esvaindo lentamente, a cada grão que cai da ampulheta. Um veneno intenso se espalhava pelo meu corpo e mente, a visão ficava turva, mas no segundo seguinte eu voltava ao normal. A angústia de repente era pó, era cinzas que renasceriam, numa ave de fogo gélido que me queimaria por dentro. E o ciclo se repetia por tantas e tantas vezes que eu não conseguia largar a caneta nem riscar o papel. A ponta da caneta fixa espalhava o preto sobre a folha. O veneno. Maldito veneno.
E eu não me lembro de mais nada. Lembro dessa cena se repetindo infinitamente na minha cabeça. Lembro como se fosse pesadelo, algumas partes recobertas em névoas, outras abraçadas pelas trevas. Eu não me recordo de como cheguei aqui.
Eu sei que me levaram entre doses de bebida quente e fumaça de cigarro. Fui carregado nos ziguezagues da rua, derrubado em sarjetas, e escutava vozes e risos. Mas eu não ria, porra. Eu não achava essa merda engraçada. Eu não sabia qual era a piada. Eu só queria parar de suar frio, dar meus próprios passos. Queria que a febre passasse, a temperatura caísse mas não a ponto de eu virar um gélido cadáver entre velas e incensos. Nunca soube rezar, mas tive tantos e tantos diálogos imaginários com algum deus e não lembro de nenhum. Minha vista, meus pensamentos, nada mais pertencia a mim. E os malditos ponteiros do relógio mentiam. A todo o tempo. Os tics e tacs me irritavam. Me deixavam louco.
Mas tudo virou silêncio.
Cheguei aqui. Sozinho e maltrapilho. A sensação ruim passou. Podia respirar leve, podia ver o verde das árvores e sentir o calor do sol. Arrisquei sorrir. Arrisquei cantar. Arrisquei dar um passo e depois outro, e comecei a caminhar. A febre passou junto com os delírios. No espelho, meu rosto era o meu novamente.
Mais uma vez no ponto de partida, tudo voltou a fazer sentido. Não sei quanto tempo passou, ou o que fiz nesse tempo. Só sei que algum ou vários milagres me curaram. Só sei que em alguma hora eu precisei me agarrar a algo e segurei forte. Talvez não tenha sido isso a salvação, mas foi o fio da meada da esperança. Agora eu não sei o que fazer. Não tenho planos e também não me importo. Quero apenas colocar meu chapéu na cabeça e dançar na chuva.
terça-feira, 18 de setembro de 2012
quarta-feira, 29 de agosto de 2012
It makes me wonder
Hoje você vai questionar a vida, porque tudo parece torto. Porque suas lembranças estão mais gostosas que o dia de hoje, e nenhuma resposta parece vir há tempos. Hoje, suas horas eram árvores de inverno, secas e sem folha. E a mais leve crítica era vento que roubava o restante de sua beleza. As pessoas passam por você e não reparam, pois não há nada a ser visto. Você é vestígio de vida resumido a quase nada, um objeto quase inanimado que só está em pé por teimosia. E mesmo que as nuvens se abrissem, o azul voltasse com raios de sol e oferecessem todo o calor para que a vida voltasse ao seu corpo, você não aceitaria.
Mal sabe você que, assim que o mundo andar mais um pouco e o inverno passar, voltará a ser bela dama de vestidos sensuais. E em seu corpo que residirá todo o refresco e calor do mundo. Toda a vida e clamor por oxigênio. Porque toda mulher é predestinada a sofrer, embora não seja merecedora. Mas é a mulher que tem o talento de virar o jogo em uma cruzada de pernas. É você que pode ter o olhar mais doce e mais gélido, mas que escolha sempre o lado doce. Só espero que prefira o sonho ao pesadelo, e a ternura tão inocente que cativa mesmo sem propósito.
E eu fico pensando o que é que você está esperando?
O alinhamento bizarro dos planetas, ou talvez o bater de asas de uma borboleta. As areias de uma ampulheta, os ponteiros de um relógio. Alguns dados concretos, ou talvez uma intervenção divina. Ou talvez apenas um motivo para sorrir.
E aqui está ele: um elogio.
quarta-feira, 1 de agosto de 2012
This broken man
Eu sou o sorriso ingênuo da paixão,
que em lençóis puros consolida o pecado.
E que procura na lua uma resposta para o aperto,
mas só acha nela o refletir de um olhar.
E sou o beijo mais sincero e doce,
repleto de vontade e veneração.
A admiração que empresta brilho aos olhos,
o novo cheiro que perfuma seus travesseiros.
Eu sou quem aceita ser torto e quebrado,
quebrado de curvar-se às chances do destino.
Quebrado por ser um sonho que nunca acabará,
mas que por diversas vezes terá gosto de pesadelo.
Eu sou a chuva que inunda os olhos,
as lágrimas salgadas que acariciam o rosto.
Mas nunca deixarei de ser aquela memória boa,
nem me tornarei menos só porque me fui.
Não importa se faço ou não falta,
contanto que na essência eu ainda saiba.
Saiba que sou quebrado e não tenho conserto,
e estarei por aí aos cacos e remendos.
Eu sou o presente tímido dado com sinceridade,
eu sou o beijo de boa noite com sussurros,
eu sou o sonho vivido e prova de sua existência.
Eu sou uma promessa que vai ecoar inúmeras vezes,
até que um dia finalmente se calará.
Mas, mesmo quando o vil momento chegar,
eu serei aquele grande e imenso vazio.
Um vazio como as peças que me faltam.
que em lençóis puros consolida o pecado.
E que procura na lua uma resposta para o aperto,
mas só acha nela o refletir de um olhar.
E sou o beijo mais sincero e doce,
repleto de vontade e veneração.
A admiração que empresta brilho aos olhos,
o novo cheiro que perfuma seus travesseiros.
Eu sou quem aceita ser torto e quebrado,
quebrado de curvar-se às chances do destino.
Quebrado por ser um sonho que nunca acabará,
mas que por diversas vezes terá gosto de pesadelo.
Eu sou a chuva que inunda os olhos,
as lágrimas salgadas que acariciam o rosto.
Mas nunca deixarei de ser aquela memória boa,
nem me tornarei menos só porque me fui.
Não importa se faço ou não falta,
contanto que na essência eu ainda saiba.
Saiba que sou quebrado e não tenho conserto,
e estarei por aí aos cacos e remendos.
Eu sou o presente tímido dado com sinceridade,
eu sou o beijo de boa noite com sussurros,
eu sou o sonho vivido e prova de sua existência.
Eu sou uma promessa que vai ecoar inúmeras vezes,
até que um dia finalmente se calará.
Mas, mesmo quando o vil momento chegar,
eu serei aquele grande e imenso vazio.
Um vazio como as peças que me faltam.
segunda-feira, 30 de julho de 2012
Drowning
O ar se esvai junto com a coragem. Mas é preciso respirar. Eu quero nadar pra superfície e encher meus pulmões, eu quero emergir mais uma vez, confiante e cheio de crenças, de sonhos. A força é sobre-humana para manter-se longe do fundo, e se isso é tão difícil, que dirá subir, subir tantos palmos. Quando mais eu desço, menos suportável é a pressão. O corpo sente-se cansado, os braços não respondem mais. O jeito com que me debato por ar é ridículo. Não se luta contra os deuses, e o senhor dos mares me mantém nessa posição patética.
Ingenuidade. A gente sempre acredita que tudo é bom, único, insubstituível. Que o mundo tem um topo, que vamos deixar nossa marca. E, no entanto, todo nosso esforço é superficial. Como um pequeno arranhão em toda a imensidão do mundo. Somos formigas, formigas a ser afogadas. Somos o mínimo, o minúsculo, de pulmões frágeis e ossos quebráveis. Somos a vida frágil, crendo que temos o poder da transformação. Somos palavras que são sussurradas no ouvido e depois de um tempo somos esquecidos.
Somos uma mera reflexão pré-óbito.
E então, quando aceitamos tudo isso. Quando nossa existência não faz mais diferença e o corpo cede, por milagre começamos a flutuar. Emergimos sem o menor esforço, respiramos o ar como um renascimento. Enchemos os pulmões, avistamos terra e ousamos sorrir. Sorrimos porque teremos sol, sobra e segurança. Porque descansaremos, enfim, e contemplaremos o mar no seu mais belo ângulo. Teremos um horizonte novo, com abundância de ar, e a água passará apenas a nos refrescar.
Mas quando ousamos sorrir afrontamos os deuses, e nova tempestade surge. Como castigo pela nossa prepotência, como uma lição que deve ser ensinada. Uma tempestade forte, uma demonstração de fúria. Sobrenatural e rápida que chega antes de conseguirmos colocar os pés na areia. Que encobre o sol, que desfolha as árvores e levanta as mais altas ondas, numa força que nos puxa antes que possamos reagir, implacável.
E afundamos novamente.
Ingenuidade. A gente sempre acredita que tudo é bom, único, insubstituível. Que o mundo tem um topo, que vamos deixar nossa marca. E, no entanto, todo nosso esforço é superficial. Como um pequeno arranhão em toda a imensidão do mundo. Somos formigas, formigas a ser afogadas. Somos o mínimo, o minúsculo, de pulmões frágeis e ossos quebráveis. Somos a vida frágil, crendo que temos o poder da transformação. Somos palavras que são sussurradas no ouvido e depois de um tempo somos esquecidos.
Somos uma mera reflexão pré-óbito.
E então, quando aceitamos tudo isso. Quando nossa existência não faz mais diferença e o corpo cede, por milagre começamos a flutuar. Emergimos sem o menor esforço, respiramos o ar como um renascimento. Enchemos os pulmões, avistamos terra e ousamos sorrir. Sorrimos porque teremos sol, sobra e segurança. Porque descansaremos, enfim, e contemplaremos o mar no seu mais belo ângulo. Teremos um horizonte novo, com abundância de ar, e a água passará apenas a nos refrescar.
Mas quando ousamos sorrir afrontamos os deuses, e nova tempestade surge. Como castigo pela nossa prepotência, como uma lição que deve ser ensinada. Uma tempestade forte, uma demonstração de fúria. Sobrenatural e rápida que chega antes de conseguirmos colocar os pés na areia. Que encobre o sol, que desfolha as árvores e levanta as mais altas ondas, numa força que nos puxa antes que possamos reagir, implacável.
E afundamos novamente.
terça-feira, 10 de julho de 2012
Wound
Machucam, as palavras doces, o sorriso.
Machuca, a beleza, a ternura pura.
O jeito de andar, o olhar e o cheiro.
E um beijo é quase a morte.
Machuca o jeito que nos viram do avesso.
Que nos amam e nos envolvem.
Que nos plantam memória no coração.
E como conseguem ser tão elas.
A gente tenta viver assim:
como ave ferida que tenta voar,
que sangra, mas se debate inutilmente.
Que tenta fingir que ainda é livre.
Mas, uma vez que flechados,
mas, uma vez que as notamos...
A nossa vida muda para sempre,
porque a beleza fere profundamente.
terça-feira, 12 de junho de 2012
This Time
Às vezes, a flor não se importa com o vaso e a ternura é o prato mais saboroso a ser servido. A chuva vira trilha sonora, suave na janela, enquanto os sonhos acontecem de olhos abertos e sorrir é a única opção. E a valsa pode ser dançada a qualquer som e a passos tortos, desde que haja convite, suave e inebriante quando só se sente o coração bater.
A sinfonia sem maestro que toca ao ritmo desse metrônomo descompassado se chamar amor. Composta por instrumentos peculiares, é verdade, numa peça em que só dois são convidados a participar. E nela cada nota é tocada suavemente no corpo do outro, de olhos fechados, sem precisar de partitura. Todo improviso é bonito, e a sintonia nunca deixa a música desafinar.
Enquanto lençóis ficam amarrotados e as velas queimam lentamente. Enquanto a camisa manchada de vinho repousa sobre a cadeira e a bolsa aberta esparrama seu conteúdo esquecida sobre o sofá. Enquanto as paredes ocultam o mais belo segredo e a lua se enche para engrandecer a noite e um sapato ficou à porta enquanto outro está debaixo da cama, os enamorados se redescobrem, não pela primeira muito menos pela última vez.
Mas é como se fosse ambas. Porque a música segue e os corpos se buscam. E dessa vez os olhos não mentem. O beijo na testa antes do adormecer fala mais do que qualquer diálogo. Ali, postos um diante do outro, não basta o encontro físico: ainda sonharão um com o outro. Porque este é o momento e a vez de eternizar o amor.
A sinfonia sem maestro que toca ao ritmo desse metrônomo descompassado se chamar amor. Composta por instrumentos peculiares, é verdade, numa peça em que só dois são convidados a participar. E nela cada nota é tocada suavemente no corpo do outro, de olhos fechados, sem precisar de partitura. Todo improviso é bonito, e a sintonia nunca deixa a música desafinar.
Enquanto lençóis ficam amarrotados e as velas queimam lentamente. Enquanto a camisa manchada de vinho repousa sobre a cadeira e a bolsa aberta esparrama seu conteúdo esquecida sobre o sofá. Enquanto as paredes ocultam o mais belo segredo e a lua se enche para engrandecer a noite e um sapato ficou à porta enquanto outro está debaixo da cama, os enamorados se redescobrem, não pela primeira muito menos pela última vez.
Mas é como se fosse ambas. Porque a música segue e os corpos se buscam. E dessa vez os olhos não mentem. O beijo na testa antes do adormecer fala mais do que qualquer diálogo. Ali, postos um diante do outro, não basta o encontro físico: ainda sonharão um com o outro. Porque este é o momento e a vez de eternizar o amor.
quarta-feira, 9 de maio de 2012
The Sound of Silence
Ele estava sentado só, compenetrado em sua composição, copo de whiskey do lado. Ela chegou quase despercebida, fazendo carinho nos seus ombros, com intenções dúbias. Gostava mesmo de provocar, e tentava chamar atenção. Mas era uma concentração quase impossível de quebrar, e ele tentava ignorar enquanto as provocações aumentavam. Ela sussurrava no seu ouvido, com voz gostosa e com cada vez meno pudor. E uma mordida sutil na orelha o fez parar de disfarçar e entregar os pontos.
Quando ele se levantou, ela retrocedeu fugindo do seu toque. Rindo como menina, se jogou na cama, só de camiseta e calcinha. Sutiã já tirado, a marca das pontinhas dos seios sobressaindo-se à camiseta. E, naquele emaranhado de cobertores e travesseiros, ele se perdeu. Não dava mais para contar o tempo, e as palavras nem precisavam mais existir. Os diálogos existam no olhar, nas bocas que se encontravam e nos pelos que arrepiavam.
Então, no fim das contas ela adormeceu. Ele ficou lá assistindo, e seu braço formigou sob o pescoço dela. Pensamentos iam e vinham, enquanto assistia àquele rosto angelical tranquilo, embalado nos sonhos e ele parecia mais nem existir. Então era hora de puxar delicadamente o braço, cobrir a garota e voltar para sua composição.
Serviu mais uma dose no copo. Pegou mais uma folha em branco. O que viria pela frente?
A memória ainda o arrepiava. Ele voltou ao ponto de partida. Esperando se haveria algum sussurro em seu ouvido mais uma vez.
Quando ele se levantou, ela retrocedeu fugindo do seu toque. Rindo como menina, se jogou na cama, só de camiseta e calcinha. Sutiã já tirado, a marca das pontinhas dos seios sobressaindo-se à camiseta. E, naquele emaranhado de cobertores e travesseiros, ele se perdeu. Não dava mais para contar o tempo, e as palavras nem precisavam mais existir. Os diálogos existam no olhar, nas bocas que se encontravam e nos pelos que arrepiavam.
Então, no fim das contas ela adormeceu. Ele ficou lá assistindo, e seu braço formigou sob o pescoço dela. Pensamentos iam e vinham, enquanto assistia àquele rosto angelical tranquilo, embalado nos sonhos e ele parecia mais nem existir. Então era hora de puxar delicadamente o braço, cobrir a garota e voltar para sua composição.
Serviu mais uma dose no copo. Pegou mais uma folha em branco. O que viria pela frente?
A memória ainda o arrepiava. Ele voltou ao ponto de partida. Esperando se haveria algum sussurro em seu ouvido mais uma vez.
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