Ela estava sentada de frente para a rua, e desviava seu olhar dos olhos dele toda hora para apreciar a paisagem. Aquela era uma conversa nada agradável, e ela em sua inexperiência achava tedioso lidar com tudo aquilo. Não queria mais explicar nada, apenas queria decretar o fim. Um atestado de óbito e nada mais.
Por mais que os momentos tivessem sido lindos, ele nunca tinha sido nada demais. Foi sim, até certo ponto, bom pra ela. Mas apenas bom, não foi ótimo nem espetacular. Mediano, medíocre, uma chama quase apagada que nunca queimou em fogo ardente de paixão. E agora era hora de encerrar tudo aquilo, um relacionamento sem propósito, uma dupla que não se entrosava e apenas queimava o tempo e perdia preciosos minutos que podiam ser gastados em felicidade. Mas o maior problema era a aceitação.
A merda é que ninguém sabe perder. Mesmo as coisas sem valor, sem significado, as coisas pequenas e minúsculas que não valem mais porra nenhuma. Somos possessivos por natureza, e ele, rapaz mimado, sabia menos ainda perder. Ela era isso: mero capricho que ele não deixaria ir fácil. Mas era uma decisão que estava fora de suas mãos, e isso o frustrava.
Então ele pergunta várias coisas sem propósito, entre elas, quer saber quando tudo acabou. Ela nunca soube responder, pois não sabia se acabou na primeira briga. Ou se acabou naquele primeiro sábado em que quis ficar sozinha em vez de estar nos braços dele. Se acabou quando aquele colega passou uma cantada e por dentro sua vaidade brilhou. Se acabou quando eles ficaram com preguiça de se arrumar pra conhecer aquele bar novo e acabaram em casa vendo um filme dublado que passava na TV. Então, ela nada respondeu, e, antes frustrado, agora ele começava a ficar irritado.
Só tinha uma coisa a fazer: ela se levantou, pegou o isqueiro sobre a mesa e foi lá fora fumar um cigarro. Simples resolução de problemas, pois era na nicotina que ela fugia de tudo. Desde os 16 quando matava aulas pra acender um filtro vermelho, que hoje dá arrepios só de lembrar. Depois, uma desculpa para as aulas mais tediosas da faculdade, aqueles quinze minutinhos pra se defumar no terraço e arejar um pouco a cabeça com a brisa da noite. Aliás, tinha sido numa dessas que eles se conheceram, e a lembrança a fez rir: como a vida era cíclica.
Mas essa fuga seguida da risada o fez passar do estágio "irritado" pra "puto", e como todo garoto mimado, ele fazia merda quando assim ficava. Ela voltou mais aliviada, pronta para resolver o assunto com maturidade e serenidade, quando ele começou a despejar todas as merdas pra fora. Disse coisas que não se diz pra uma dama, mas talvez esse tipo de cara nunca aprenda a tratar uma mulher. E ela, por mais arisca que fosse, ainda no fundo era um ser dotado de sensibilidade e começou a chorar. Desmanchou-se em lágrimas, em uma dor tão profunda que esquecera a vaidade frívola de menina que não queria borrar a maquiagem. E não se importava mais se os outros olhavam, queria mesmo é que o mundo sumisse.
A verdade é que, por mais que o amor não tenha idade, ambos eram muito novos para se apaixonar. Ela ainda tinha tanta coisa pra viver, coisas que ele nunca poderia dar. Ele era mimado, possessivo, ciumento e imaturo. Ela era rebelde, instável, boca-dura e tinha uma sede de liberdade que só aumentava a cada restrição que aquele namoro impunha. E, soluçando em lágrimas, ela começava e enxergar o óbvio, o alerta que vários tinham dado e o quanto cega havia sido por tanto tempo.
De repente olhou para ele e odiava suas roupas, seu sorriso falso e seu jeito de convencido. Havia caído em seus braços por achar que ele era ousado e confiante, mas no fundo não passava mesmo era de um babaca. Suas roupas de marca que outrora foram traduzidas em sofisticação, agora para ela eram mera falta de estilo. E o perfume dele enjoava, embrulhando seu estômago junto com aquelas palavras nojentas que ele vomitava em forma de vingança.
Aliás, o rapaz ainda continuava falando, e a imagem mental que a garota fazia era de uma figura que vomitava merda, pastosa e fedida. E o asco aumentava, sua cabeça doía, o soluço não parava e as lágrimas não davam nenhum alívio. Então ela se levantou, deu um tapa na cara dele e deixou o pequeno café sem ao menos olhar pra trás. Para ela, esse foi o melhor momento daquele relacionamento.
domingo, 17 de fevereiro de 2013
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013
18 and life
De repente, ele era o dono do mundo. Empunhava uma garrafa barata de rum, tomando seu conteúdo no gargalo, arrastando-se no seu jeans rasgado e cozinhando no sol quente. O dia amanhecia, mas o sono ainda não tomava seu corpo. Enxergava apenas o resultado de sua embriaguez, um canto da boca sangrando da briga do dia anterior. Sentia dor nos nós dos dedos, mas carregava em si um pequeno riso de satisfação de quem havia levado a melhor. Sacou as chaves do bolso, pulou para dentro do conversível e ligou o motor. A vida era uma aventura que começava agora.
Horas depois, o cansaço finalmente cobrava seu corpo. No meio da estrada, sem ter onde dormir, entrou com o carro em uma pequena via de terra até achar uma grande árvore. Parou sob sua sobra, esticou os pés para fora e adormeceu com a garrafa repousando sobre seu peito. O sol forte não incomodava, mas seu estômago roncava clamando por alimento. Ele respondia com goladas de rum quente, sem ligar pra mais nada. Batia uma brisa gostosa, e nada no mundo podia pará-lo. Iria dirigir o conversível até que alguém descobrisse o que fez, ou até que a polícia o encontrasse.
Acordou apenas de noite, com a sinfonia de cigarras que parecia um serrote em sua cabeça. Finalmente, a ressaca havia chegado, ele precisava sair de lá. Ligou o motor, arrancou bruscamente e, de volta à estrada, jogou a garrafa no asfalto, pelo prazer de escutar o vidro quebrando.Dirigiu madrugada adentro, quando notou que precisava de gasolina. Parou no primeiro posto, mas não havia frentista. Apenas uma pequena loja de conveniência fechada, que ele não hesitou em invadir para saquear um pouco de comida. Lá dentro havia cigarros contrabandeados e uísque vagabundo, e era o que lhe bastava. Ele deu a volta e parou atrás do posto, onde ficou fumando até o tédio bater e ele resolver dormir. Acordou com as primeiras luzes do dia e voltou ao posto. Precisava abastecer, mas não tinha dinheiro.
Pediu para o frentista completar e dirigiu-se à loja de conveniência, novamente. A essa hora, o caos estava instaurado no estabelecimento. As pessoas chocadas com o estado em que ele tinha deixado as coisas: garrafas quebradas e comida pelo chão. Ninguém imaginava que aquele rapaz estranho de jeans surrados é que tinha feito tamanho estrago.
Ao entrar, ele notou que uma menina jovem limpava a sujeira. Era uma gracinha, e seus trajes modestos a deixavam ainda mais provocante. Rosto de menina, corpo de mulher bem torneado. Aquela camisetinha branca cortada deixando a barria à mostra, e o shorts jeans desfiado revelando duas magníficas pernas que não foram esculpidas em academia, mas sim tornaram-se pela pelo esforço diário do labor. O cabelo ocultando metade daquele rosto angelical revelava certa timidez.
Ele não sabia ao certo o que estava fazendo ali, só precisava pensar numa solução para não pagar a gasolina. E, pra piorar, aquela beleza singela fazia com que seu raciocínio ficasse mais lerdo ainda. O relógio estava andando, e ele sabia que precisava agir rápido e traçar um plano de fuga. Será que a polícia já estava procurando pelo conversível roubado? Será que seu rosto estaria estampado nos jornais em forma de retrato-falado?
Não dava para arriscar. Ele tinha uma vida inteira pela frente, uma grande aventura. Era assim que viveria, sem pensar no ontem nem no amanhã. E a bela menina seria sua parceira. Fugiriam juntos, ele precisava ser rápido e levá-la junto.
Havia uma caminhonete parada atrás da loja de conveniência, deveria ser do dono. Então, ele esperou as pessoas saírem, pegou uma garrafa e golpeou a cabeça do velho. Quando a menina virou-se para ver a cena, ele fez sinal para que ela ficasse quieta. Roubou a carteira do senhor que agora estava desacordado, pegou as chaves no seu bolso, mais bebida e mais cigarro, e forçou a menina a entrar na caminhonete. Fugiu mais uma vez.
A garota chorava, e pedia para ir embora. Ele virava o uísque barato e não queria saber de mais nada. Andava sem rumo, sua refém não parava de chorar. Irritado e embriagado, ele dava bofetadas na cara dela, mandando-a calar a boca. Ela cuspiu em sua cara, então ele parou o carro bruscamente e a beijou à força. Começou a ir pra cima, rasgando a camisetinha dela que, envergonhada, tentava proteger os seios de sua visão. Estavam no meio da estrada, com um veículo grande, ao longe sons de sirenes. Quando escutou, ele ligou novamente a velha caminhonete e acelerou. Uma mão no volante, a outra na garrafa. Estava cansado e bebia mais e mais.
Um animal na estrada.
Ele nem conseguiu ver o que era. No reflexo, jogou o carro para o lado e a última coisa que viu foi uma árvore. Acordou com o cheiro de sangue, não havia mais beleza. Não havia mais garota, apenas um corpo e sirenes. Enquanto era algemado, ele ainda acreditava que sairia daquela. Afinal, tinha apenas 18, e uma vida inteira pela frente.
Horas depois, o cansaço finalmente cobrava seu corpo. No meio da estrada, sem ter onde dormir, entrou com o carro em uma pequena via de terra até achar uma grande árvore. Parou sob sua sobra, esticou os pés para fora e adormeceu com a garrafa repousando sobre seu peito. O sol forte não incomodava, mas seu estômago roncava clamando por alimento. Ele respondia com goladas de rum quente, sem ligar pra mais nada. Batia uma brisa gostosa, e nada no mundo podia pará-lo. Iria dirigir o conversível até que alguém descobrisse o que fez, ou até que a polícia o encontrasse.
Acordou apenas de noite, com a sinfonia de cigarras que parecia um serrote em sua cabeça. Finalmente, a ressaca havia chegado, ele precisava sair de lá. Ligou o motor, arrancou bruscamente e, de volta à estrada, jogou a garrafa no asfalto, pelo prazer de escutar o vidro quebrando.Dirigiu madrugada adentro, quando notou que precisava de gasolina. Parou no primeiro posto, mas não havia frentista. Apenas uma pequena loja de conveniência fechada, que ele não hesitou em invadir para saquear um pouco de comida. Lá dentro havia cigarros contrabandeados e uísque vagabundo, e era o que lhe bastava. Ele deu a volta e parou atrás do posto, onde ficou fumando até o tédio bater e ele resolver dormir. Acordou com as primeiras luzes do dia e voltou ao posto. Precisava abastecer, mas não tinha dinheiro.
Pediu para o frentista completar e dirigiu-se à loja de conveniência, novamente. A essa hora, o caos estava instaurado no estabelecimento. As pessoas chocadas com o estado em que ele tinha deixado as coisas: garrafas quebradas e comida pelo chão. Ninguém imaginava que aquele rapaz estranho de jeans surrados é que tinha feito tamanho estrago.
Ao entrar, ele notou que uma menina jovem limpava a sujeira. Era uma gracinha, e seus trajes modestos a deixavam ainda mais provocante. Rosto de menina, corpo de mulher bem torneado. Aquela camisetinha branca cortada deixando a barria à mostra, e o shorts jeans desfiado revelando duas magníficas pernas que não foram esculpidas em academia, mas sim tornaram-se pela pelo esforço diário do labor. O cabelo ocultando metade daquele rosto angelical revelava certa timidez.
Ele não sabia ao certo o que estava fazendo ali, só precisava pensar numa solução para não pagar a gasolina. E, pra piorar, aquela beleza singela fazia com que seu raciocínio ficasse mais lerdo ainda. O relógio estava andando, e ele sabia que precisava agir rápido e traçar um plano de fuga. Será que a polícia já estava procurando pelo conversível roubado? Será que seu rosto estaria estampado nos jornais em forma de retrato-falado?
Não dava para arriscar. Ele tinha uma vida inteira pela frente, uma grande aventura. Era assim que viveria, sem pensar no ontem nem no amanhã. E a bela menina seria sua parceira. Fugiriam juntos, ele precisava ser rápido e levá-la junto.
Havia uma caminhonete parada atrás da loja de conveniência, deveria ser do dono. Então, ele esperou as pessoas saírem, pegou uma garrafa e golpeou a cabeça do velho. Quando a menina virou-se para ver a cena, ele fez sinal para que ela ficasse quieta. Roubou a carteira do senhor que agora estava desacordado, pegou as chaves no seu bolso, mais bebida e mais cigarro, e forçou a menina a entrar na caminhonete. Fugiu mais uma vez.
A garota chorava, e pedia para ir embora. Ele virava o uísque barato e não queria saber de mais nada. Andava sem rumo, sua refém não parava de chorar. Irritado e embriagado, ele dava bofetadas na cara dela, mandando-a calar a boca. Ela cuspiu em sua cara, então ele parou o carro bruscamente e a beijou à força. Começou a ir pra cima, rasgando a camisetinha dela que, envergonhada, tentava proteger os seios de sua visão. Estavam no meio da estrada, com um veículo grande, ao longe sons de sirenes. Quando escutou, ele ligou novamente a velha caminhonete e acelerou. Uma mão no volante, a outra na garrafa. Estava cansado e bebia mais e mais.
Um animal na estrada.
Ele nem conseguiu ver o que era. No reflexo, jogou o carro para o lado e a última coisa que viu foi uma árvore. Acordou com o cheiro de sangue, não havia mais beleza. Não havia mais garota, apenas um corpo e sirenes. Enquanto era algemado, ele ainda acreditava que sairia daquela. Afinal, tinha apenas 18, e uma vida inteira pela frente.
segunda-feira, 28 de janeiro de 2013
You are not alone
Até hoje eu olho para a cicatriz. Feia, saltada sobre minha pele. Marcada num risco, marcada pelas linhas que entraram para costurar de volta aquele buraco. Se fecho os olhos, ainda posso sentir a dor, e minha respiração fica ofegante novamente. Como um filme, vejo tudo acontecendo lentamente, mas não consigo mudar a ordem dos fatos mesmo usando muito da minha fértil imaginação. E, por um instante, eu me odeio, sabendo que um dia mereci punição mais forte do que a que tive. Sabendo que não poderia reclamar se o mundo me fosse mais cruel, e que a piedade do destino é uma cobrança de dívida eterna com minha consciência.
Quando volto desse devaneio, sinto-me novamente vivo. Mais do que nunca eu sei que a vida é uma dádiva, e que cada segundo que avanço no tempo por si só é uma conquista. Há muitos momentos em que achamos que nossos sonhos estão para sempre enterrados, é quando descobrimos que existe sim um fim. E o gosto amargo da bile vem à nossa boca, o desespero espalha como neblina em nossos pensamentos e a razão se dissipa. Por sorte, descobrimos diversas vezes que estamos errados.
Tal qual uma pequena cicatriz me traz essas memórias, olhando para as falhas remendadas que existem dentro de mim eu consigo enxergar outros incidentes em que a última fronteira parecia próxima. Às vezes a gente acha que falha apenas por deixar uma lágrima cair. Outras vezes nossa falha é algo muito mais sério e embaraçoso. Eu já vivi essas duas situações e sei que, em diversos casos, eu não pedi ajuda cara a cara. Alguns dos melhores diálogos foram lado a lado, ambos olhando para o horizonte, talvez projetando lá algo que estava sendo dito. E cada pequena falha minha assim foi remendada.
Você que me conheceu em dia estranho e noite de bar. Você que ouviu meu desabafo antes que me sufocasse com minhas próprias palavras, que teve paciência de escutá-las mesmo quando tudo soava demasiadamente dramático. Você que entornou um copo comigo, que riu na embriaguez e que me deu um abraço forte de despedida mesmo sabendo que nos veríamos em breve. Você tem esse poder mágico de cura, e, por isso, celebraremos à vida. Sem separar os bons dos maus momentos, porque são minhas falhas que mostram o que tenho de melhor.
Eu não tenho mais vergonha de falar que tive medo. Até quando desafiei aos outros, até quando fui moleque petulante e irresponsável. Nem eu sei como algumas coisas deram certo, mas eu arrisquei e arrisquei alto, e ninguém pode falar que não sei jogar, porque fui até o extremo. Eu também não tenho mais vergonha de falar que tive dores bobas. Que a rejeição já me estragou uma noite, salva por um braço amigo que me arrastou até o lugar que me fazia mais feliz e me fez olhar pro céu, entendendo como tudo aquilo era pequeno e como ainda havia espaço para brilhar.
Aí eu volto para a realidade e vejo que não é uma história só minha. E como em cada parte de mim existe um conto a ser contado, cada qual com seus personagens. Eu percebo quantos segredos compartilhei e como cada um deles ficou mais leve depois disso, e que o verdadeiro alívio é poder confiar em alguém.
Tanto tempo depois e as memórias ainda estão aí. E quando eu vejo que ainda gosto daquela música imbecil, ou quando eu lembro dos acordes de uma canção que só escutei algumas vezes há muito tempo atrás, percebo como cada detalhe é importante para compor o enredo das nossas vidas. Neste tortuoso roteiro, mais reviravoltas estão por vir, e o balde de água fria espera para desmanchar meu riso de satisfação com tudo.
Mas eu quero celebrar. Quero celebrar porque a gente chega onde quer, mas acaba parando num lugar que nunca imaginou. E isso pode ser chamado de felicidade.
Há pequenas decisões que refletem em grandes conquistas. Cabe a nós desfrutar dos resultados, sempre brindando, como um ritual de agradecimento por tanta generosidade. Mas minha garrafa procura várias taças para encher, e eu quero escutar o brinde em coro, enquanto sinto uma brisa trazendo as mudanças.
Nem tudo é festa, e eu sei que coisas difíceis podem estar por vir. Mas a vida é boa e eu serei cada vez mais feliz, porque tenho em mim convicção, e isso basta para eu nunca parar. E, quando as forças me faltarem, eu sei que algumas mãos me puxarão de volta para o caminho certo. Eu sei que de pouco em pouco construí algo grande que me sustenta e não me deixa chegar ao fundo do poço. Como num brinde, posso escutar um coro de voz me dizendo: "você não está sozinho".
Quando volto desse devaneio, sinto-me novamente vivo. Mais do que nunca eu sei que a vida é uma dádiva, e que cada segundo que avanço no tempo por si só é uma conquista. Há muitos momentos em que achamos que nossos sonhos estão para sempre enterrados, é quando descobrimos que existe sim um fim. E o gosto amargo da bile vem à nossa boca, o desespero espalha como neblina em nossos pensamentos e a razão se dissipa. Por sorte, descobrimos diversas vezes que estamos errados.
Tal qual uma pequena cicatriz me traz essas memórias, olhando para as falhas remendadas que existem dentro de mim eu consigo enxergar outros incidentes em que a última fronteira parecia próxima. Às vezes a gente acha que falha apenas por deixar uma lágrima cair. Outras vezes nossa falha é algo muito mais sério e embaraçoso. Eu já vivi essas duas situações e sei que, em diversos casos, eu não pedi ajuda cara a cara. Alguns dos melhores diálogos foram lado a lado, ambos olhando para o horizonte, talvez projetando lá algo que estava sendo dito. E cada pequena falha minha assim foi remendada.
Você que me conheceu em dia estranho e noite de bar. Você que ouviu meu desabafo antes que me sufocasse com minhas próprias palavras, que teve paciência de escutá-las mesmo quando tudo soava demasiadamente dramático. Você que entornou um copo comigo, que riu na embriaguez e que me deu um abraço forte de despedida mesmo sabendo que nos veríamos em breve. Você tem esse poder mágico de cura, e, por isso, celebraremos à vida. Sem separar os bons dos maus momentos, porque são minhas falhas que mostram o que tenho de melhor.
Eu não tenho mais vergonha de falar que tive medo. Até quando desafiei aos outros, até quando fui moleque petulante e irresponsável. Nem eu sei como algumas coisas deram certo, mas eu arrisquei e arrisquei alto, e ninguém pode falar que não sei jogar, porque fui até o extremo. Eu também não tenho mais vergonha de falar que tive dores bobas. Que a rejeição já me estragou uma noite, salva por um braço amigo que me arrastou até o lugar que me fazia mais feliz e me fez olhar pro céu, entendendo como tudo aquilo era pequeno e como ainda havia espaço para brilhar.
Aí eu volto para a realidade e vejo que não é uma história só minha. E como em cada parte de mim existe um conto a ser contado, cada qual com seus personagens. Eu percebo quantos segredos compartilhei e como cada um deles ficou mais leve depois disso, e que o verdadeiro alívio é poder confiar em alguém.
Tanto tempo depois e as memórias ainda estão aí. E quando eu vejo que ainda gosto daquela música imbecil, ou quando eu lembro dos acordes de uma canção que só escutei algumas vezes há muito tempo atrás, percebo como cada detalhe é importante para compor o enredo das nossas vidas. Neste tortuoso roteiro, mais reviravoltas estão por vir, e o balde de água fria espera para desmanchar meu riso de satisfação com tudo.
Mas eu quero celebrar. Quero celebrar porque a gente chega onde quer, mas acaba parando num lugar que nunca imaginou. E isso pode ser chamado de felicidade.
Há pequenas decisões que refletem em grandes conquistas. Cabe a nós desfrutar dos resultados, sempre brindando, como um ritual de agradecimento por tanta generosidade. Mas minha garrafa procura várias taças para encher, e eu quero escutar o brinde em coro, enquanto sinto uma brisa trazendo as mudanças.
Nem tudo é festa, e eu sei que coisas difíceis podem estar por vir. Mas a vida é boa e eu serei cada vez mais feliz, porque tenho em mim convicção, e isso basta para eu nunca parar. E, quando as forças me faltarem, eu sei que algumas mãos me puxarão de volta para o caminho certo. Eu sei que de pouco em pouco construí algo grande que me sustenta e não me deixa chegar ao fundo do poço. Como num brinde, posso escutar um coro de voz me dizendo: "você não está sozinho".
segunda-feira, 21 de janeiro de 2013
The ace of spades
Depois que aquela cadela me deixou encrencado com os seguranças do bar e sem meu relógio, eu fiquei mais casca grossa ainda. Se você nasce com um pau, não pode vacilar nunca na vida. O pau te faz macho, mas é uma fraqueza: uma mulher na jogada pode foder tudo e eu acabei caindo na cilada. Sou um cara que sempre aposta alto, não posso ceder assim. E, nesse dia, depois de liberar uma grana e amaciar os seguranças com muita lábia e scotchs, eu decidi que não me abalaria. Ainda recuperaria meu relógio. Era tudo sobre a porra do relógio.
Deu uns dias e eu tava lá, num inferninho que eu sempre ia, que fedia a charuto barato e o couro dos sofás era todo manchado. Duas loiras deliciosas se insinuavam para mim, uma de cada lado, mas eu estava focado. Numa noite em que eu desejei mais que elas se fodessem do que fodessem comigo ao mesmo tempo. Reparei que tinha um rapaz meio punk novinho acendendo um baseado, e já fui dando um tapa na orelha dele. Esses imbecis sempre se acham os delinquentes acendendo o baseado em qualquer biboca, mas é só tomar uns tapas que de punks eles viram hippies. E eu não tenho saco pra hippies.
O viadinho queria mesmo era chorar pra mamãe, mas ele sabia que tava num canto sem leis. Um lugar onde a lei era ser macho, e nesse quesito ele não tinha vez comigo. Acabou vazando na primeira encarada, eu tomei seu lugar naquele imundo sofá. A noite passava e uma morena tentou sentar no meu colo, mas eu recolhi a perna e deixei a vadia cair no chão com drink e tudo. Duas outras meretrizes a ajudaram a levantar, sem sequer conseguir olhar na minha direção. Foi então, nessa bagunça toda, que chegou quem eu esperava.
Ele parecia uma caricatura de filme, com aqueles colares grandes e pesados, cara de bicheiro. Perdia muito dinheiro no pôquer, mas ganhava muito nas ruas. Basicamente sua atividade era pegar os bens que os viciados roubavam por aí e dava uns trocados pra eles fumarem ou cheirarem. De vez em quando vinha uma correntinha de ouro ou um colar de pérolas, alguma relíquia de família e coisas assim, que valiam uma grana. E daí vinha seu real talento: ele conseguia fazer rolo por coisas "limpas" que também valiam grana, e no final tirava um trocado filho da puta. Era capaz de vender a mãe por dinheiro, e eu sabia que era envolvido em várias outras atividades ilícitas por aí. Mas foda-se, isso não era problema meu.
Ele riu e encheu meu copo com um uísque barato que eu tomei só porque era de graça. Se fosse um filho da puta qualquer, teria jogado o conteúdo do copo na cara do imbecil. Mas eu tinha um interesse, então falei pro corno sentar, ele tava rindo pra caralho porque viu a mina cair e disse que, ao ver o burburinho, sabia que era coisa minha. Perguntei se ele se sentia com sorte naquele dia, porque ele sempre respondia a mesma coisa: que sim. E não falhou: ótimo sinal para mim.
Perguntei de um relógio. Ele sorriu, um dente de ouro aparecendo. Puxou a manga daquela camisa ridícula, e mostrou o pulso. Merda! Ele tinha mal gosto mas sabia o que era valioso. O que me dizia que não seria fácil recuperar a porra do meu relógio.
Esperei a hora do jogo. Mesa cheia. A merda era essa: eu não podia eliminá-lo prematuramente, mas alguém poderia fazê-lo por mim. E aí ficaria foda pegar o que era meu de volta. Pra minha alegria, o filho da puta estava mesmo com sorte, mas eu conhecia seu jogo. Saí quando senti que ele estava com a mão boa, mesmo sabendo que a minha seria imbatível. Assim, ele eliminaria o resto e se sentira confiante. No final, ficamos só nós dois na mesa, mas minha pequena desvantagem logo desapareceu: eu estava ganhando.
O flop estava uma merda. Eu tinha uma dupla na minha mão. Uma dupla de ases. Fiz cara de que não tinha nada, e aumentei a aposta. Ele achou que era blefe, claro, e pagou. Chegou o turn. Um valete. O filho da puta soltou um sorriso que eu sabia que ele tinha uma dupla de valetes na mão. Eu tinha mais fichas, então, apostei tudo. Era muita grana, ele não conseguia cobrir a aposta, mas sabia que era questão de honra me liquidar. Eu dei uma provocada, falando que ele não conseguia cobrir, então ele mordeu a isca. Ofereceu o relógio na mesa e eu aceitei. Tudo estava valendo naquela hora, meu relógio, minha reputação, meu orgulho. Foi então que a última carta deu as caras: um às de espadas.
Eu sorri. Mostrei as cartas, sabendo que ele não bateria meu trio. Quando os dois valetes se juntaram ao da mesa minha vitória foi confirmada. Ninguém era páreo para mim, eu jamais vacilaria novamente. Nem pensei em contar as fichas naquela hora, peguei o relógio e coloquei no pulso. Enquanto o abotoava, percebi algo estranho. A sala se esvaziou, as cortinas foram fechadas e o perdedor ainda me encarava. Senti uma presença atrás de mim, então o cheiro daquele perfume me fez parar.
Uma voz inconfundível sussurou no meu ouvido, me parabenizando pela vitória. Eu queria arrebentar a cara da vadia, mas algo me fez parar. Foi então que eu entendi. O relógio não era coincidência. Ela sentou no colo do meu adversário, e os dois riam. Além de pegar travecos, o filho da puta havia armado pra mim. Ele deslizou a mão e eu sabia que não era pra pegar na bunda dela. Virei a mesa sobre eles, me joguei no chão e puxei meu canivete. Quando ele alcançou a arma, eu já rasgava seu pescoço. A vadia da travesti correu, e eu sabia que se não saísse pelos fundos viraria presunto. Mais uma vez, ela se safava e eu ficava com o prejuízo. Decidi que não. Peguei a arma do perdedor, entrei no salão e abri um rombo na cabeça dela. Merda. Eu havia vacilado pela segunda vez naquela semana.
Deu uns dias e eu tava lá, num inferninho que eu sempre ia, que fedia a charuto barato e o couro dos sofás era todo manchado. Duas loiras deliciosas se insinuavam para mim, uma de cada lado, mas eu estava focado. Numa noite em que eu desejei mais que elas se fodessem do que fodessem comigo ao mesmo tempo. Reparei que tinha um rapaz meio punk novinho acendendo um baseado, e já fui dando um tapa na orelha dele. Esses imbecis sempre se acham os delinquentes acendendo o baseado em qualquer biboca, mas é só tomar uns tapas que de punks eles viram hippies. E eu não tenho saco pra hippies.
O viadinho queria mesmo era chorar pra mamãe, mas ele sabia que tava num canto sem leis. Um lugar onde a lei era ser macho, e nesse quesito ele não tinha vez comigo. Acabou vazando na primeira encarada, eu tomei seu lugar naquele imundo sofá. A noite passava e uma morena tentou sentar no meu colo, mas eu recolhi a perna e deixei a vadia cair no chão com drink e tudo. Duas outras meretrizes a ajudaram a levantar, sem sequer conseguir olhar na minha direção. Foi então, nessa bagunça toda, que chegou quem eu esperava.
Ele parecia uma caricatura de filme, com aqueles colares grandes e pesados, cara de bicheiro. Perdia muito dinheiro no pôquer, mas ganhava muito nas ruas. Basicamente sua atividade era pegar os bens que os viciados roubavam por aí e dava uns trocados pra eles fumarem ou cheirarem. De vez em quando vinha uma correntinha de ouro ou um colar de pérolas, alguma relíquia de família e coisas assim, que valiam uma grana. E daí vinha seu real talento: ele conseguia fazer rolo por coisas "limpas" que também valiam grana, e no final tirava um trocado filho da puta. Era capaz de vender a mãe por dinheiro, e eu sabia que era envolvido em várias outras atividades ilícitas por aí. Mas foda-se, isso não era problema meu.
Ele riu e encheu meu copo com um uísque barato que eu tomei só porque era de graça. Se fosse um filho da puta qualquer, teria jogado o conteúdo do copo na cara do imbecil. Mas eu tinha um interesse, então falei pro corno sentar, ele tava rindo pra caralho porque viu a mina cair e disse que, ao ver o burburinho, sabia que era coisa minha. Perguntei se ele se sentia com sorte naquele dia, porque ele sempre respondia a mesma coisa: que sim. E não falhou: ótimo sinal para mim.
Perguntei de um relógio. Ele sorriu, um dente de ouro aparecendo. Puxou a manga daquela camisa ridícula, e mostrou o pulso. Merda! Ele tinha mal gosto mas sabia o que era valioso. O que me dizia que não seria fácil recuperar a porra do meu relógio.
Esperei a hora do jogo. Mesa cheia. A merda era essa: eu não podia eliminá-lo prematuramente, mas alguém poderia fazê-lo por mim. E aí ficaria foda pegar o que era meu de volta. Pra minha alegria, o filho da puta estava mesmo com sorte, mas eu conhecia seu jogo. Saí quando senti que ele estava com a mão boa, mesmo sabendo que a minha seria imbatível. Assim, ele eliminaria o resto e se sentira confiante. No final, ficamos só nós dois na mesa, mas minha pequena desvantagem logo desapareceu: eu estava ganhando.
O flop estava uma merda. Eu tinha uma dupla na minha mão. Uma dupla de ases. Fiz cara de que não tinha nada, e aumentei a aposta. Ele achou que era blefe, claro, e pagou. Chegou o turn. Um valete. O filho da puta soltou um sorriso que eu sabia que ele tinha uma dupla de valetes na mão. Eu tinha mais fichas, então, apostei tudo. Era muita grana, ele não conseguia cobrir a aposta, mas sabia que era questão de honra me liquidar. Eu dei uma provocada, falando que ele não conseguia cobrir, então ele mordeu a isca. Ofereceu o relógio na mesa e eu aceitei. Tudo estava valendo naquela hora, meu relógio, minha reputação, meu orgulho. Foi então que a última carta deu as caras: um às de espadas.
Eu sorri. Mostrei as cartas, sabendo que ele não bateria meu trio. Quando os dois valetes se juntaram ao da mesa minha vitória foi confirmada. Ninguém era páreo para mim, eu jamais vacilaria novamente. Nem pensei em contar as fichas naquela hora, peguei o relógio e coloquei no pulso. Enquanto o abotoava, percebi algo estranho. A sala se esvaziou, as cortinas foram fechadas e o perdedor ainda me encarava. Senti uma presença atrás de mim, então o cheiro daquele perfume me fez parar.
Uma voz inconfundível sussurou no meu ouvido, me parabenizando pela vitória. Eu queria arrebentar a cara da vadia, mas algo me fez parar. Foi então que eu entendi. O relógio não era coincidência. Ela sentou no colo do meu adversário, e os dois riam. Além de pegar travecos, o filho da puta havia armado pra mim. Ele deslizou a mão e eu sabia que não era pra pegar na bunda dela. Virei a mesa sobre eles, me joguei no chão e puxei meu canivete. Quando ele alcançou a arma, eu já rasgava seu pescoço. A vadia da travesti correu, e eu sabia que se não saísse pelos fundos viraria presunto. Mais uma vez, ela se safava e eu ficava com o prejuízo. Decidi que não. Peguei a arma do perdedor, entrei no salão e abri um rombo na cabeça dela. Merda. Eu havia vacilado pela segunda vez naquela semana.
terça-feira, 15 de janeiro de 2013
The Jack
Eu sabia que ela blefava. Porra, dava uma de menina carente e sem atenção, ficava se queixando da vida, mas vivia lá, dando a cara a tapa. Alguns caras decentes já se aproximaram com boas intenções, mas eu conheço o tipo: eles nunca tiveram chance. Ela fazia carinha de triste, e tudo aquilo era charme. Sua maneira de conseguir atenção, um mecanismo de defesa que havia funcionado durante anos. Já conheci muitas mais belas, mas aquela mulher tinha algo de especial. Algo de irritante mas um tom arisco que me fazia ter vontade de dominá-la. Merda, eu sabia que cederia.
Naquele dia eu tomava dois dedos de um escocês e a vi se aproximar do bar. Bloody mary. Clichê, mas achei que ela tinha mais personalidade do que as garotas que pediam cosmopolitan. Ela sabia que grande parte do bar parava para apreciar sua presença, e fazia questão de ser provocante com sua bebida. Caralho, ela sempre sabia a mão que tinha e jogava bem com isso. Mesmo eu que estava tentando ignorá-la dei uma espiada para ver o que tanto fazia todos os pescoços do bar se virarem: um vestido simples vermelho, mas que inspirava a todos um sentimento mais lascivo do que os da mulher que tomou vinho com seu amante. Então ela se apossou do banco ao lado do meu, e, sem sequer olhar na minha cara, disse uma frase qualquer, irônica. Eu estava no jogo.
A vida inteira eu tentei não ser feito de trouxa. Acabei virando um tremendo de um vagabundo, desses que consegue encantar uma mulher, conseguir o que quer e cair fora antes que ela tenha qualquer ideia de compromisso. Eu fazia isso bem, mas por mais canalha que fosse, havia uma certa ética com o meu procedimento. Ora, você pode perguntar a qualquer uma delas se não as tratei como princesas enquanto tudo corria bem. Porque eu sei tratar uma mulher, e assim como sei o que quero, sei de tudo o que elas querem. Sou exímio amante, mestre em escutá-las, e, além de tudo, meu ótimo gosto sempre fez com que as levasse nos melhores hotéis e restaurantes. Mesmo que não me importasse com elas, fazer tudo isso e fazer bem era uma questão de ego, de orgulho. De certa forma sei que fui inesquecível, e que uma mulher que se deita comigo uma vez o repetirá quando me convir. Eu sou esse tipo de cara.
Mas voltando ao bar, nem me recordo o que estava pensando naquele dia, nem o raciocínio que me conduziu a fazer aquela cagada. Eu sempre fui foda no jogo, e, assim, eu a fazia aumentar sua aposta: estava tudo realmente interessante. O melhor de mim conseguia levar bem a situação, e ela estava no terceiro drink enquanto eu nem havia importunado o bartender novamente. A trilha sonora era bizarra por sua composição, alternando entre jazz, soul e salsa. Perfeita para uma noite que não fazia sentido, na qual aquela mulher de batom e vestido vermelho parecia ficar embriagada, e eu parecia cada vez mais no controle da situação.
Fomos para um sofá no lounge mais escuro do bar. Apenas iluminado pela luz baixa de um abajur, não havia nada mais intimista do que aquilo. Ela havia trocado os bloody marys por uma taça de vinho, e eu ainda tomando um bom scotch sem gelo, apenas para molhar a boca e continuar o papo. Ela ria de todas as minhas piadas, e eu não sou uma merda de um cara engraçado. Nunca fui bobo da corte para mulheres, mas sou dotado de uma porra de uma ironia que diverte as pessoas. Eu não acho graça, mas ela ria, ria e mostrava os pulsos, e tirou um cigarro da bolsa segurando-o por muito tempo. Aquilo me deixava impaciente, mas que caralhos ela queria, fumar lá dentro? Seria tão transgressora assim?
Com o cigarro em mãos, ela se aproximou e falou no meu ouvido, de um jeito sensual e dúbio. Apenas me avisou que iria lá fora fumar, mas eu sabia que era um convite. Eu sempre fui foda, havia ganhado o jogo de novo. Era hora de ganhar todas as fichas da mesa, de submeter aquela dama de copas e levá-la para meu apartamento. Apenas por umas horas, a dispensaria pela manhã.
Lá fora, ela encostou na parede e ficava fazendo charme. Eu fazia questão de diminuir o espaço entre nossos corpos, ela se mostrava um pouco evasiva e depois deixava. Consegui a distância suficiente para um beijo, e ela começou a morder meus lábios, me puxar com força, passar a mão em todo meu corpo e a coisa ia ficando quente que eu nem sentia mais nada. Foi então que, em um ímpeto, apertei meu corpo contra o dela e senti aquela coisa. A porra da dama de copas era um valete. Chocado, olhei com fúria e ódio para ela. Ela soltou meio riso, e, logo após, gritou alto. Gritou que eu abusava dela, e os seguranças vieram pra cima de mim. Enquanto tentava me explicar, ela saiu tranquilamente no seu salto, chamou um táxi e entrou. Foi então que eu senti meu braço mais leve e meu relógio não estava mais no meu pulso. Vi o táxi indo embora e só consegui pensar em uma coisa: filha da puta!
Naquele dia eu tomava dois dedos de um escocês e a vi se aproximar do bar. Bloody mary. Clichê, mas achei que ela tinha mais personalidade do que as garotas que pediam cosmopolitan. Ela sabia que grande parte do bar parava para apreciar sua presença, e fazia questão de ser provocante com sua bebida. Caralho, ela sempre sabia a mão que tinha e jogava bem com isso. Mesmo eu que estava tentando ignorá-la dei uma espiada para ver o que tanto fazia todos os pescoços do bar se virarem: um vestido simples vermelho, mas que inspirava a todos um sentimento mais lascivo do que os da mulher que tomou vinho com seu amante. Então ela se apossou do banco ao lado do meu, e, sem sequer olhar na minha cara, disse uma frase qualquer, irônica. Eu estava no jogo.
A vida inteira eu tentei não ser feito de trouxa. Acabei virando um tremendo de um vagabundo, desses que consegue encantar uma mulher, conseguir o que quer e cair fora antes que ela tenha qualquer ideia de compromisso. Eu fazia isso bem, mas por mais canalha que fosse, havia uma certa ética com o meu procedimento. Ora, você pode perguntar a qualquer uma delas se não as tratei como princesas enquanto tudo corria bem. Porque eu sei tratar uma mulher, e assim como sei o que quero, sei de tudo o que elas querem. Sou exímio amante, mestre em escutá-las, e, além de tudo, meu ótimo gosto sempre fez com que as levasse nos melhores hotéis e restaurantes. Mesmo que não me importasse com elas, fazer tudo isso e fazer bem era uma questão de ego, de orgulho. De certa forma sei que fui inesquecível, e que uma mulher que se deita comigo uma vez o repetirá quando me convir. Eu sou esse tipo de cara.
Mas voltando ao bar, nem me recordo o que estava pensando naquele dia, nem o raciocínio que me conduziu a fazer aquela cagada. Eu sempre fui foda no jogo, e, assim, eu a fazia aumentar sua aposta: estava tudo realmente interessante. O melhor de mim conseguia levar bem a situação, e ela estava no terceiro drink enquanto eu nem havia importunado o bartender novamente. A trilha sonora era bizarra por sua composição, alternando entre jazz, soul e salsa. Perfeita para uma noite que não fazia sentido, na qual aquela mulher de batom e vestido vermelho parecia ficar embriagada, e eu parecia cada vez mais no controle da situação.
Fomos para um sofá no lounge mais escuro do bar. Apenas iluminado pela luz baixa de um abajur, não havia nada mais intimista do que aquilo. Ela havia trocado os bloody marys por uma taça de vinho, e eu ainda tomando um bom scotch sem gelo, apenas para molhar a boca e continuar o papo. Ela ria de todas as minhas piadas, e eu não sou uma merda de um cara engraçado. Nunca fui bobo da corte para mulheres, mas sou dotado de uma porra de uma ironia que diverte as pessoas. Eu não acho graça, mas ela ria, ria e mostrava os pulsos, e tirou um cigarro da bolsa segurando-o por muito tempo. Aquilo me deixava impaciente, mas que caralhos ela queria, fumar lá dentro? Seria tão transgressora assim?
Com o cigarro em mãos, ela se aproximou e falou no meu ouvido, de um jeito sensual e dúbio. Apenas me avisou que iria lá fora fumar, mas eu sabia que era um convite. Eu sempre fui foda, havia ganhado o jogo de novo. Era hora de ganhar todas as fichas da mesa, de submeter aquela dama de copas e levá-la para meu apartamento. Apenas por umas horas, a dispensaria pela manhã.
Lá fora, ela encostou na parede e ficava fazendo charme. Eu fazia questão de diminuir o espaço entre nossos corpos, ela se mostrava um pouco evasiva e depois deixava. Consegui a distância suficiente para um beijo, e ela começou a morder meus lábios, me puxar com força, passar a mão em todo meu corpo e a coisa ia ficando quente que eu nem sentia mais nada. Foi então que, em um ímpeto, apertei meu corpo contra o dela e senti aquela coisa. A porra da dama de copas era um valete. Chocado, olhei com fúria e ódio para ela. Ela soltou meio riso, e, logo após, gritou alto. Gritou que eu abusava dela, e os seguranças vieram pra cima de mim. Enquanto tentava me explicar, ela saiu tranquilamente no seu salto, chamou um táxi e entrou. Foi então que eu senti meu braço mais leve e meu relógio não estava mais no meu pulso. Vi o táxi indo embora e só consegui pensar em uma coisa: filha da puta!
quarta-feira, 19 de dezembro de 2012
The Wind Cries Mary
Maria era uma mulher devota, de uma humilde província do norte do país. Uma terra dominada pela barbárie, atrasada por pelo menos 2 mil anos em relação ao resto da civilização. Mas ela mantinha-se serena, com sua fé e valores inabaláveis. Mesmo sendo uma das mais belas e cobiçadas, mesmo com coronéis oferecendo-lhe mundos e fundos, ela que fora criada para ser a esposa perfeita, decidiu entregar seu amor a um humilde trabalhador braçal, que nada tinha além da honestidade e dignidade.
Desde pequena, Maria sabia todas as orações de cor, rezava por uma vida melhor e pelo fim de tanto sangue derramado por um pedaço de chão. Rezava para ficar longe dos jagunços, talvez para um dia sair de lá e levar sua família toda para um lugar belo e seguro. Era a mais prendada de suas irmãs: aprendeu a costurar desde cedo e cozinhava como ninguém que vivia naquelas bandas. Sabia aproveitar o pouco que tinha para transformar em saborosa comida, uma raridade dentro daquele ambiente tão carente e precário. E sua beleza era indescritível: seu rosto conseguia ser belo como porcelana mesmo quando sujo de terra ou carvão. Suas mãos que aguentavam o mais pesado labor não perdiam a delicadeza, mesmo com anos de lida. E, no mais ensolarado dos dias, sua pele não exalava odor algum. Era uma menina rara que estava florescendo em encantadora mulher.
Claro que isso despertou o desejo de muitos poderosos que eram acostumados a ter tudo que queriam. Mas a ela não podiam ter, já que havia se prometido a José no mais puro voto: castidade até o dia de seu casamento. E o dia estava próximo: haviam anunciado que em alguns meses o juiz de paz de uma cidade maior visitaria a cidade para unir em matrimônio os casais que assim quisessem. Até lá, seu namoro se resumia a pequenas prosas no portão, sempre à vista de todos e antes da noite ficar muito tarde.
Em uma dessas ocasiões, após José deixar sua casa, ela ficou um tempinho a mais para fora recolhendo lenha para o fogão, que seria usada no dia seguinte. Foi quando, de longe, escutou um mau presságio: um barulho infernal de automóvel, coisa rara naquela região. Apenas quem os possuía eram os coronéis, que quando apareciam no bairro era apenas para causar tumulto e sofrimento aos moradores. E a picape vermelha parou em frente à sua casa, quando um dos coronéis a fez um descortês elogio. Enrubescida com tamanha grosseria, Maria nada fez além de continuar seu labor cabisbaixa, tentando nem olhar em direção ao tenebroso veículo. Mas homens poderosos odeiam sem ignorados, e após mais dois ou três "elogios" sem resposta, o coronel ficou enfurecido e desceu da caminhonete, estapeando a menina. Foi quando a lua tão bela brilhou em seu rosto, e ele viu aqueles olhos profundos e quis tê-la. Ora, um homem desses tem tudo o que quer, mesmo que à força. E foi esse o destino de Maria: estuprada às vésperas do casamento.
Era muita dor e vergonha para uma devota como ela. Sem saber o que fazer, a garota passou dias isolada e chorando, ninguém conseguia falar com ela. Foi então que José, em sua imensa bondade e palavras sábias que não condiziam com sua falta de escolaridade, conseguiu convencê-la de falar com ele, e, aos poucos, arrancou toda história. O rapaz sentiu-se impotente como nunca: incapaz de controlar sua sede de vingança e de ver o sangue de quem roubou-lhe a pureza de Maria e a humilhou. Incapaz de sequer saciar a sede, pois precisaria alcançar alguém que é intocável. E, em meio a tanta angústia e desespero, ele soube ser sábio, beijou a testa de sua noiva e a confortou. Disse que seguiria com o casamento e que, para ele, virgem ela sempre seria, pois sua pureza de espírito era o que contava.
Mal sabia ele que, tempos depois, para escândalo geral na vila, Maria apareceria com uma barriga, que não daria mais para esconder. Em meio a tantas fofocas e insinuações, em meio à revolta do pai da garota que queria desfazer o casamento, José deu sua maior cartada: disse a todos que sua futura esposa permanecia casta, mas, tamanha era sua pureza, que ela havia engravidado do sopro de vida de Deus, e que de seu ventre nasceria o herdeiro da bondade. Ele, que nunca havia jurado na vida, deu sua palavra a todos que a barriga de maria era o mais belo milagre e, com a soma de fé e ignorância daquelas pessoas, convenceu um a um de que seria padrasto do fruto máximo do amor. Quando a vontade de Maria mesmo era dar um fim àquela barriga, sendo só impedida pela sua falta de coragem e condições financeiras de fazê-lo.
O fato é que a criança nasceu, e foi quando Maria aprendeu a amá-la. Era um menino forte, e, apesar da falta de material genético, seu caráter inteiro foi moldado pela personalidade íntegra de José. De tanto que pai e filho se aproximaram, a mãe conseguia já ver seu fruto sem lembrar do pior episódio de sua vida. E eles viveram felizes por um tempo, em equilíbrio, até que o castigo veio ao agressor de Maria, mas não sem antes levar algo de valioso que ela tinha. O coronel havia manifestado um câncer incurável, e sofreria até o fim dos dias que lhe restavam. Porém, sua esposa sabia da aventura que ele teve com a pobre camponesa, sendo a única que não caiu no conto do fruto divino. Era questão de tempo até tentar se vingar de Maria tirando a vida que concebeu, ela apenas aguardava a morte do coronel.
Sabendo disso, José conversou com sua esposa e ambos decidiram, por bem, gastar todas suas economias e mandar seu filho Jesus viver com uns parentes numa cidade maior, onde estaria livre das ameaças do provincianismo daquela terra. E, sem derramar uma lágrima nos olhos, o moleque foi. Mesmo não entendendo as razões, agarrou-se na devoção que tinha pelo pai e foi. Como os parentes de José também eram humildes, o menino teve que se virar. Mas era sério e trabalhador, e assim conversava de igual para igual com os mais velhos, escutava, cativava e aprendia. Foi assim que ganhou a vida e conhecimento. Criou condições para estudar, interessado cada vez mais em assuntos que poderiam fazê-lo regressar e lutar para melhorar as condições de seu povo. Foi o melhor em todas as matérias, tornou-se mestre e doutor. E então, já havia passado muito tempo sem contato com seus pais, e decidiu encerrar seu exílio para libertar seu povo.
Retornou como anônimo, mas sua matemática e estudo o fez ganhar destaque em alguns meses. Juntou diversos trabalhadores em torno de um objetivo só e, em pouco tempo, formava sólidas cooperativas que multiplicavam os pães daquele povo tão faminto. E a palavra se espalhou, até que chegou aos seus pais que o reencontraram. Foi um momento emocionante, até que ele se recusou a voltar para a casa deles. Disse que tinha uma missão, e precisava ajudar seu povo. Foi aí que Maria sofreu mais uma vez na vida, entre outras tantas que viriam.
O povo aclamava o nome de Jesus, e começaram a botá-lo no posto de prefeito mesmo faltando mais de ano para as eleições. Ele dizia que não queria se candidatar, mas seu pequeno comitê de amigos próximos o convenceram a ao menos entrar para o partido. Era composto por doze homens mais Jesus, o primeiro a se preocupar com as carências do povo em vez de buscar lucros.
Mas a palavra também se espalhou para os poderosos e, o filho legítimo do coronel se irritou com a história. Irritou-se mais ainda quando sua mãe contou quem era Jesus: seu irmão bastardo e nunca reconhecido. Só que o coronelzinho sabia que, com a força do povo e subsídio do partido popular não seria fácil alcançar seu irmão ilegítimo. Ele precisaria esperar o momento certo de dar o bote. Mas, como sempre, conseguiria tudo o que queria, e, àquela altura, tomando terras à força, já era dono de metade da cidade. Controlava o atual prefeito e estava preparando uma nova marionete para sucessão. Ninguém estragaria seus planos.
Acontece que os compromissos de Jesus eram pautados apenas pelos 12, que eram homens de ideais fortes e devotos a Jesus. Ninguém saberia facilmente os passos do filho de José que eram guardados a sete chaves, pois nele residiam todas as esperanças da revolução. Mas, em meio à luta, o filho de Maria acabou por se apaixonar por outra Maria, uma jovem libertária que nada tinha a ver com sua homônima: não era casta, não era mulher de arrumar marido. Era uma guerreira que sabia o que queria, e envolvia-se cada vez mais com o partido popular para conseguir melhorar sua condição.
Mesmo sendo arisca, a nova Maria não pôde resistir aos encantos daquele exímio líder que conduzia como maestro o movimento que incendiava o coração daquele povo em esperanças. Conseguiu até médicos de cidades vizinhas para ser voluntários, curando e prevenindo diversas doenças que eram incuráveis para aquele povo. E Jesus e Maria encontravam-se escondidos, o único que guardava tal segredo era um dos 12 que mais tinha afinidade com Jesus: Judas.
O problema é que o portador do segredo, apesar de ser um grande idealista, tinha em si o vício do jogo, sua única fraqueza. Trabalhador que era, sempre dava um jeito de pagar suas dívida, mas nunca parava de voltar a jogar e perder. E uma de suas dívidas foi comprada pelo coronelzinho que, tal qual um agiota, utilizou-se da força para cobrar a dívida. Judas não tinha o dinheiro, não tinha como pagar, mesmo vendo o jagunço segurar seu primogênito pelo pescoço. Implorou pela vida do menino, disse ao coronelzinho que qualquer coisa faria para pagar essa dívida, mas que poupasse sua família. Foi então que ele pagou o mais salgado preço.
Jesus chegou ao celeiro, mas sua Maria não estava lá. Havia apenas jagunços, que o prenderam e o espancaram forte até que ele perdesse seus sentidos. Acordou em praça pública, amarrado em uma cruz, antes que o sol tivesse nascido. A cidade começou a se amontoar para ver, alguns queriam libertá-lo, mas um número grande de capangas do coronelzinho, armados, não deixavam ninguém se aproximar. Então, o mandante de tudo apareceu lá para o meio-dia, açoitando Jesus em praça pública, várias e várias vezes. As duas Marias, cada um em um canto, choravam de desespero ao ver isso. E José, ainda tão impotente, começou a matar o resto de bondade que havia em si e traçou um plano. Pediu uma mula emprestada e deixou o filho a ser açoitado, sem pensar em mais nada.
Quase na hora do pôr-do-sol, Jesus já havia perdido muito sangue. A cidade quase inteira estava nas imediações da pracinha, revoltada, protestando. O coronelzinho, cego de ódio e soberba, não conseguia perceber o que estava acontecendo ali. Humilhava e xingava Jesus, e o açoitava com uma força que já não lhe bastava. Então, pegou um pedaço de pau e bateu no tronco do seu desafeto, até que a força quebrasse suas costelas e perfurasse seus pulmões. Jesus morreria em pouco tempo.
Nessa hora, José retornava com a guarda de outra cidade, um número pequeno de guardas armados, mas que estavam lá para cumprir seu dever.Os jagunços sacaram suas armas, Jesus pendurado na cruz. E, quando a guarda parecia rendida, o povo atacou os jagunços com paus e pedras, e a revolução começou. Nunca a terra daquela pequena província bebeu tanto sangue, mas, no final, o coronelzinho fugiu em seu automóvel deixando para trás seus poucos capangas que ainda tinham vida. Era o som da vitória, o povo estava livre da tirania. Foi quando Maria conseguiu chegar perto do seu filho e constatar que ele estava morto.
Demorou três dias para limpar a bagunça.
E, depois desse tempo, o povo fez sua homenagem ao falecido Jesus, que de cadáver se tornaria busto, herói eternizado por palavras e lendas fantasiosas a seu respeito. O povo finalmente estava livre graças ao seu mártir. José sentia-se vingado, finalmente. Maria, a amante, guardava em seu ventre o fruto do amor que havia perdido na cruz. Já maria, a mãe, essa estava inconsolável. Chorava pelo preço da libertação de seu povo. O preço caro que só ela parecia pagar. Um desejo que um dia já a tomou e hoje era sua maior desgraça, pois, finalmente e tardiamente, ela havia abortado.
Desde pequena, Maria sabia todas as orações de cor, rezava por uma vida melhor e pelo fim de tanto sangue derramado por um pedaço de chão. Rezava para ficar longe dos jagunços, talvez para um dia sair de lá e levar sua família toda para um lugar belo e seguro. Era a mais prendada de suas irmãs: aprendeu a costurar desde cedo e cozinhava como ninguém que vivia naquelas bandas. Sabia aproveitar o pouco que tinha para transformar em saborosa comida, uma raridade dentro daquele ambiente tão carente e precário. E sua beleza era indescritível: seu rosto conseguia ser belo como porcelana mesmo quando sujo de terra ou carvão. Suas mãos que aguentavam o mais pesado labor não perdiam a delicadeza, mesmo com anos de lida. E, no mais ensolarado dos dias, sua pele não exalava odor algum. Era uma menina rara que estava florescendo em encantadora mulher.
Claro que isso despertou o desejo de muitos poderosos que eram acostumados a ter tudo que queriam. Mas a ela não podiam ter, já que havia se prometido a José no mais puro voto: castidade até o dia de seu casamento. E o dia estava próximo: haviam anunciado que em alguns meses o juiz de paz de uma cidade maior visitaria a cidade para unir em matrimônio os casais que assim quisessem. Até lá, seu namoro se resumia a pequenas prosas no portão, sempre à vista de todos e antes da noite ficar muito tarde.
Em uma dessas ocasiões, após José deixar sua casa, ela ficou um tempinho a mais para fora recolhendo lenha para o fogão, que seria usada no dia seguinte. Foi quando, de longe, escutou um mau presságio: um barulho infernal de automóvel, coisa rara naquela região. Apenas quem os possuía eram os coronéis, que quando apareciam no bairro era apenas para causar tumulto e sofrimento aos moradores. E a picape vermelha parou em frente à sua casa, quando um dos coronéis a fez um descortês elogio. Enrubescida com tamanha grosseria, Maria nada fez além de continuar seu labor cabisbaixa, tentando nem olhar em direção ao tenebroso veículo. Mas homens poderosos odeiam sem ignorados, e após mais dois ou três "elogios" sem resposta, o coronel ficou enfurecido e desceu da caminhonete, estapeando a menina. Foi quando a lua tão bela brilhou em seu rosto, e ele viu aqueles olhos profundos e quis tê-la. Ora, um homem desses tem tudo o que quer, mesmo que à força. E foi esse o destino de Maria: estuprada às vésperas do casamento.
Era muita dor e vergonha para uma devota como ela. Sem saber o que fazer, a garota passou dias isolada e chorando, ninguém conseguia falar com ela. Foi então que José, em sua imensa bondade e palavras sábias que não condiziam com sua falta de escolaridade, conseguiu convencê-la de falar com ele, e, aos poucos, arrancou toda história. O rapaz sentiu-se impotente como nunca: incapaz de controlar sua sede de vingança e de ver o sangue de quem roubou-lhe a pureza de Maria e a humilhou. Incapaz de sequer saciar a sede, pois precisaria alcançar alguém que é intocável. E, em meio a tanta angústia e desespero, ele soube ser sábio, beijou a testa de sua noiva e a confortou. Disse que seguiria com o casamento e que, para ele, virgem ela sempre seria, pois sua pureza de espírito era o que contava.
Mal sabia ele que, tempos depois, para escândalo geral na vila, Maria apareceria com uma barriga, que não daria mais para esconder. Em meio a tantas fofocas e insinuações, em meio à revolta do pai da garota que queria desfazer o casamento, José deu sua maior cartada: disse a todos que sua futura esposa permanecia casta, mas, tamanha era sua pureza, que ela havia engravidado do sopro de vida de Deus, e que de seu ventre nasceria o herdeiro da bondade. Ele, que nunca havia jurado na vida, deu sua palavra a todos que a barriga de maria era o mais belo milagre e, com a soma de fé e ignorância daquelas pessoas, convenceu um a um de que seria padrasto do fruto máximo do amor. Quando a vontade de Maria mesmo era dar um fim àquela barriga, sendo só impedida pela sua falta de coragem e condições financeiras de fazê-lo.
O fato é que a criança nasceu, e foi quando Maria aprendeu a amá-la. Era um menino forte, e, apesar da falta de material genético, seu caráter inteiro foi moldado pela personalidade íntegra de José. De tanto que pai e filho se aproximaram, a mãe conseguia já ver seu fruto sem lembrar do pior episódio de sua vida. E eles viveram felizes por um tempo, em equilíbrio, até que o castigo veio ao agressor de Maria, mas não sem antes levar algo de valioso que ela tinha. O coronel havia manifestado um câncer incurável, e sofreria até o fim dos dias que lhe restavam. Porém, sua esposa sabia da aventura que ele teve com a pobre camponesa, sendo a única que não caiu no conto do fruto divino. Era questão de tempo até tentar se vingar de Maria tirando a vida que concebeu, ela apenas aguardava a morte do coronel.
Sabendo disso, José conversou com sua esposa e ambos decidiram, por bem, gastar todas suas economias e mandar seu filho Jesus viver com uns parentes numa cidade maior, onde estaria livre das ameaças do provincianismo daquela terra. E, sem derramar uma lágrima nos olhos, o moleque foi. Mesmo não entendendo as razões, agarrou-se na devoção que tinha pelo pai e foi. Como os parentes de José também eram humildes, o menino teve que se virar. Mas era sério e trabalhador, e assim conversava de igual para igual com os mais velhos, escutava, cativava e aprendia. Foi assim que ganhou a vida e conhecimento. Criou condições para estudar, interessado cada vez mais em assuntos que poderiam fazê-lo regressar e lutar para melhorar as condições de seu povo. Foi o melhor em todas as matérias, tornou-se mestre e doutor. E então, já havia passado muito tempo sem contato com seus pais, e decidiu encerrar seu exílio para libertar seu povo.
Retornou como anônimo, mas sua matemática e estudo o fez ganhar destaque em alguns meses. Juntou diversos trabalhadores em torno de um objetivo só e, em pouco tempo, formava sólidas cooperativas que multiplicavam os pães daquele povo tão faminto. E a palavra se espalhou, até que chegou aos seus pais que o reencontraram. Foi um momento emocionante, até que ele se recusou a voltar para a casa deles. Disse que tinha uma missão, e precisava ajudar seu povo. Foi aí que Maria sofreu mais uma vez na vida, entre outras tantas que viriam.
O povo aclamava o nome de Jesus, e começaram a botá-lo no posto de prefeito mesmo faltando mais de ano para as eleições. Ele dizia que não queria se candidatar, mas seu pequeno comitê de amigos próximos o convenceram a ao menos entrar para o partido. Era composto por doze homens mais Jesus, o primeiro a se preocupar com as carências do povo em vez de buscar lucros.
Mas a palavra também se espalhou para os poderosos e, o filho legítimo do coronel se irritou com a história. Irritou-se mais ainda quando sua mãe contou quem era Jesus: seu irmão bastardo e nunca reconhecido. Só que o coronelzinho sabia que, com a força do povo e subsídio do partido popular não seria fácil alcançar seu irmão ilegítimo. Ele precisaria esperar o momento certo de dar o bote. Mas, como sempre, conseguiria tudo o que queria, e, àquela altura, tomando terras à força, já era dono de metade da cidade. Controlava o atual prefeito e estava preparando uma nova marionete para sucessão. Ninguém estragaria seus planos.
Acontece que os compromissos de Jesus eram pautados apenas pelos 12, que eram homens de ideais fortes e devotos a Jesus. Ninguém saberia facilmente os passos do filho de José que eram guardados a sete chaves, pois nele residiam todas as esperanças da revolução. Mas, em meio à luta, o filho de Maria acabou por se apaixonar por outra Maria, uma jovem libertária que nada tinha a ver com sua homônima: não era casta, não era mulher de arrumar marido. Era uma guerreira que sabia o que queria, e envolvia-se cada vez mais com o partido popular para conseguir melhorar sua condição.
Mesmo sendo arisca, a nova Maria não pôde resistir aos encantos daquele exímio líder que conduzia como maestro o movimento que incendiava o coração daquele povo em esperanças. Conseguiu até médicos de cidades vizinhas para ser voluntários, curando e prevenindo diversas doenças que eram incuráveis para aquele povo. E Jesus e Maria encontravam-se escondidos, o único que guardava tal segredo era um dos 12 que mais tinha afinidade com Jesus: Judas.
O problema é que o portador do segredo, apesar de ser um grande idealista, tinha em si o vício do jogo, sua única fraqueza. Trabalhador que era, sempre dava um jeito de pagar suas dívida, mas nunca parava de voltar a jogar e perder. E uma de suas dívidas foi comprada pelo coronelzinho que, tal qual um agiota, utilizou-se da força para cobrar a dívida. Judas não tinha o dinheiro, não tinha como pagar, mesmo vendo o jagunço segurar seu primogênito pelo pescoço. Implorou pela vida do menino, disse ao coronelzinho que qualquer coisa faria para pagar essa dívida, mas que poupasse sua família. Foi então que ele pagou o mais salgado preço.
Jesus chegou ao celeiro, mas sua Maria não estava lá. Havia apenas jagunços, que o prenderam e o espancaram forte até que ele perdesse seus sentidos. Acordou em praça pública, amarrado em uma cruz, antes que o sol tivesse nascido. A cidade começou a se amontoar para ver, alguns queriam libertá-lo, mas um número grande de capangas do coronelzinho, armados, não deixavam ninguém se aproximar. Então, o mandante de tudo apareceu lá para o meio-dia, açoitando Jesus em praça pública, várias e várias vezes. As duas Marias, cada um em um canto, choravam de desespero ao ver isso. E José, ainda tão impotente, começou a matar o resto de bondade que havia em si e traçou um plano. Pediu uma mula emprestada e deixou o filho a ser açoitado, sem pensar em mais nada.
Quase na hora do pôr-do-sol, Jesus já havia perdido muito sangue. A cidade quase inteira estava nas imediações da pracinha, revoltada, protestando. O coronelzinho, cego de ódio e soberba, não conseguia perceber o que estava acontecendo ali. Humilhava e xingava Jesus, e o açoitava com uma força que já não lhe bastava. Então, pegou um pedaço de pau e bateu no tronco do seu desafeto, até que a força quebrasse suas costelas e perfurasse seus pulmões. Jesus morreria em pouco tempo.
Nessa hora, José retornava com a guarda de outra cidade, um número pequeno de guardas armados, mas que estavam lá para cumprir seu dever.Os jagunços sacaram suas armas, Jesus pendurado na cruz. E, quando a guarda parecia rendida, o povo atacou os jagunços com paus e pedras, e a revolução começou. Nunca a terra daquela pequena província bebeu tanto sangue, mas, no final, o coronelzinho fugiu em seu automóvel deixando para trás seus poucos capangas que ainda tinham vida. Era o som da vitória, o povo estava livre da tirania. Foi quando Maria conseguiu chegar perto do seu filho e constatar que ele estava morto.
Demorou três dias para limpar a bagunça.
E, depois desse tempo, o povo fez sua homenagem ao falecido Jesus, que de cadáver se tornaria busto, herói eternizado por palavras e lendas fantasiosas a seu respeito. O povo finalmente estava livre graças ao seu mártir. José sentia-se vingado, finalmente. Maria, a amante, guardava em seu ventre o fruto do amor que havia perdido na cruz. Já maria, a mãe, essa estava inconsolável. Chorava pelo preço da libertação de seu povo. O preço caro que só ela parecia pagar. Um desejo que um dia já a tomou e hoje era sua maior desgraça, pois, finalmente e tardiamente, ela havia abortado.
segunda-feira, 10 de dezembro de 2012
You don't know me
E as portas de vidro de um bar quase vazio revelavam sua semi-depressão num fim de tarde corriqueiro. Sentada no balcão no seu terceiro drink enquanto toda a cidade ainda saía para se arrumar naquele dia cinzento, ela era apenas paisagem para os transeuntes que andavam animados pelas calçadas largas. O cenário era maravilhoso, ao contrário da cena que não era de todo mal. Era de certa forma poética, mas assim daquela forma que qualquer um que a presenciasse ficaria com a alma compadecida. Encarava o conteúdo do seu copo como se ele a compreendesse, e, já meio embriagada, mexia vagarosamente o canudo esperando que o gelo predissesse seu futuro.
Mas isso não iria acontecer.
O pianista chegou mais cedo, e quase por piedade à única cliente do bar naquele momento, tirou cuidadosamente o veludo das teclas e começou e tocar notas com a suavidade e elegância que só seus anos de prática e sensibilidade permitiam. Ela não percebeu o que acontecia, mas, aos poucos, a música foi conduzindo seus pensamentos em outra direção. Parou de encarar o copo e olhou para frente, e começou a reparar naquela paisagem que era o plano de fundo de seu filme. Já tinha cenário e trilha sonora, agora faltava o enredo, o conflito. Que ela procurava desesperadamente através do vidro, e, ao escurecer, encontrou refletido nele.
De repente viu-se bonita ao seu próprio modo. Esguia e bem-vestida, dotada de uma elegância pertencente a poucas. As luzes da cidade lá fora a chamavam, e então, deixou uma gorjeta generosa ao rapaz do bar e, quando estava pronta para sair, percebeu que o pianista, único a enxergá-la, era cego. Riu com a ironia e passou pela porta, ainda com as notas suaves na cabeça, meio dançante, aproveitando que tudo havia mudado.
Com o estômago meio embrulhado pela bebida que não era acostumada a tomar de barriga vazia, ela para numa barraca, compra algo para comer e senta no primeiro banquinho que aparece. A noite traz uma brisa fresca, que espanta um pouco do calor e a faz fechar os olhos por um instante, enquanto seus cabelos voam para trás. Era como se aquela parte da cidade fosse jazz, bela, complexa, elaborada e improvisada. Tal qual seus passos naquele dia incerto e atípico, sua rotina quebrada como o tempo marcado pela bateria.
A noite era uma jam session.
Ela desce as escadas do metrô e, lá dentro, um quarteto de cordas toca feliz, apenas esperando umas moedas como retorno. Ela separa umas notas e deixa na caixa, quando quase esbarra nele, que fazia o mesmo gesto. Os dois riem, encabulados, e se olham pelo tempo suficiente para ficarem ainda mais constrangidos. Quase como um pedido de desculpas, ele tenta arrumar tudo estendendo a mão a ela, convidando-a para dançar num cavalheirismo já extinto no mundo.
E eles dançam como se não fosse nada estranho, como se as pessoas não olhassem e como se o quarteto fosse sua bandinha particular. É quando um barulho ensurdecedor atrapalha o clima, fazendo com que a música suma de seus ouvidos e quebre o encanto do momento. As mãos se soltam, mas os olhares ainda continuam conexos por um tempo. Finalmente ela desvia o foco: seu trem havia chegado. Sem dizer nada, ela vira as costas e entra no vagão. Um pouco antes da porta fechar, ele toma a súbita decisão de entrar também. O sinal sonoro toca e não tem mais volta: agora estão juntos na mesma direção.
E ele não a conhecia. Ainda.
Mas isso não iria acontecer.
O pianista chegou mais cedo, e quase por piedade à única cliente do bar naquele momento, tirou cuidadosamente o veludo das teclas e começou e tocar notas com a suavidade e elegância que só seus anos de prática e sensibilidade permitiam. Ela não percebeu o que acontecia, mas, aos poucos, a música foi conduzindo seus pensamentos em outra direção. Parou de encarar o copo e olhou para frente, e começou a reparar naquela paisagem que era o plano de fundo de seu filme. Já tinha cenário e trilha sonora, agora faltava o enredo, o conflito. Que ela procurava desesperadamente através do vidro, e, ao escurecer, encontrou refletido nele.
De repente viu-se bonita ao seu próprio modo. Esguia e bem-vestida, dotada de uma elegância pertencente a poucas. As luzes da cidade lá fora a chamavam, e então, deixou uma gorjeta generosa ao rapaz do bar e, quando estava pronta para sair, percebeu que o pianista, único a enxergá-la, era cego. Riu com a ironia e passou pela porta, ainda com as notas suaves na cabeça, meio dançante, aproveitando que tudo havia mudado.
Com o estômago meio embrulhado pela bebida que não era acostumada a tomar de barriga vazia, ela para numa barraca, compra algo para comer e senta no primeiro banquinho que aparece. A noite traz uma brisa fresca, que espanta um pouco do calor e a faz fechar os olhos por um instante, enquanto seus cabelos voam para trás. Era como se aquela parte da cidade fosse jazz, bela, complexa, elaborada e improvisada. Tal qual seus passos naquele dia incerto e atípico, sua rotina quebrada como o tempo marcado pela bateria.
A noite era uma jam session.
Ela desce as escadas do metrô e, lá dentro, um quarteto de cordas toca feliz, apenas esperando umas moedas como retorno. Ela separa umas notas e deixa na caixa, quando quase esbarra nele, que fazia o mesmo gesto. Os dois riem, encabulados, e se olham pelo tempo suficiente para ficarem ainda mais constrangidos. Quase como um pedido de desculpas, ele tenta arrumar tudo estendendo a mão a ela, convidando-a para dançar num cavalheirismo já extinto no mundo.
E eles dançam como se não fosse nada estranho, como se as pessoas não olhassem e como se o quarteto fosse sua bandinha particular. É quando um barulho ensurdecedor atrapalha o clima, fazendo com que a música suma de seus ouvidos e quebre o encanto do momento. As mãos se soltam, mas os olhares ainda continuam conexos por um tempo. Finalmente ela desvia o foco: seu trem havia chegado. Sem dizer nada, ela vira as costas e entra no vagão. Um pouco antes da porta fechar, ele toma a súbita decisão de entrar também. O sinal sonoro toca e não tem mais volta: agora estão juntos na mesma direção.
E ele não a conhecia. Ainda.
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