quarta-feira, 6 de julho de 2011

Comfortably numb

Naquele momento, era impossível ouvir qualquer coisa. Era um segundo singelo, tal qual o instante exato da criação do universo, quando, em uma explosão imensurável, surgiu tudo que se conhece e pode enxergar até hoje. Enquanto ela caminhava em minha direção, o mundo ganhava vida, cada fio de cabelo ao vento era um raio de luz que vinha ao mundo, e seu abrir de olhos fez com que o mar se agitasse em ondas.

Junto com ela, nascia a história.

Em suas maçãs do rosto, surgiram todos os prazeres da vida, e, em seu sorriso, nada menos do que o amor. A ponta de seu queixo deu origem aos abismos, os mesmos em que saltaríamos com sensação de voar, numa queda infinita e sem volta. Mais ou menos entre o pescoço e o ombro, surgiu o sono confortável e os melhores sonhos. Nos braços, a firmeza e a coragem, enquanto as mãos se encarregavam de inventar a sutileza das nuvens.

No peito pulsava um coração, trazendo o ritmo que deu a luz à música e à poesia, enquanto a maciez do seu ventre permitia que o solo fosse fértil. Suas pernas fizeram com que o mundo girasse, enquanto seus pés cravavam toda firmeza moral e ética que pudesse existir.

Foi assim que surgiu o mundo, e eu senti. Senti como embrião que nada via e flutuava, senti a explosão, o calor e o ar pela primeira vez. Mesmo que não conseguisse escutar mais nada, mesmo com o cérebro formigando. Eu estava entorpecido, entorpecido dela. E, depois que ela surgiu para o mundo, em cada beijo me entorpeço de novo, no meu vício de amá-la como se um universo coubesse no meu coração.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Nice


O amor nasce do carinho com que os dedos tocam as cordas, num samba que ressoa muito tempo depois, mesmo a milhares de quilômetros de distância. Parece que o mar, após recolher as pequenas gotas de chuva que ela mandou, traz a ele a música, novamente. Ele só espera mandar um pouco de chuva para que ela possa, enfim, ter uma noite de sono repleta de sonhos bonitos. Quando a chuva aparece para ambos, um sente a presença do outro, como sempre foi.

Ele escolhe cuidadosamente as pedrinhas da praia e as lança ao mar. Quer dividir com ela aquela linda paisagem, as águas azuis que mergulham nas pedras e são puxadas de volta ao oceano. Ele quer que ela veja a imensidão daquele horizonte, os navios robustos que bóiam como se não tivessem peso, e os pescadores que, mesmo sem nada pegarem, recolhem felizes as linhas para colocar mais isca.

Longe de casa as coisas são belas, mas o coração ainda não se sente pleno. Faltam cheiros e a presença dela. Pois não há travesseiro melhor do que aquele ventre que acolhe o ouvido dele. E apenas o lugar em que eles se deitam juntos que ele considera sua cama.

Ele vê tudo de belo - as pracinhas, os toldos, as construções, a praia de pedra, as bicicletas - e clonclui: ainda vai trazê-la para ver tudo isso.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Versailles


O jardim é belo, e quando bate o sol, os lagos colaboram com reflexos que emprestam brilho às plantas cuidadosamente esculpidas e organizadas. Há poucas flores e cores, e há estátuas e bancos frios, mas a grama cresce em simetria, conduzida pelo som de orquestra que paira no lugar. Cada pé que toca as pedrinhas do chão carrega uma história, mas o deslumbre pela imensidão do lugar é quase o mesmo. A grama é tão convidativa que, suave, o sol também recosta sobre ela.

E quantos pensamentos flutuam neste bosque. Em cada passo, uma sensação.

Por todos os lugares, as pessoas fazem questão de registrar sua passagem. As crianças, animadas, andam e correm neste espaço sem igual. Quando há vastidão, há também liberdade. Como sempre deve haver no pensamento.

Sim, há muito o que ser visto. Mas assim é o mundo: um grande jardim a ser explorado, com deslumbrante vastidão. E nossa passagem por ele não deve ficar em branco, pois cada segundo é importante, mesmo se ele for temperado por uma saudade crônica que bate quando deixamos de olhar para fora e decidimos enfim olhar para dentro. Não importa. O coração deve sorrir mesmo com este peso, pois esta é a escolha do aventureiro, irremediável.

E, se o peso começar a ficar muito latente, basta abrir o caderninho onde estão as memórias, revê-las e deixar as novas escoarem. Elas descerão como gotas de chuva para molhar o coração de quem está longe.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Paris


Os paralelepípedos das ruas sobressaem aos olhos, enquanto a paisagem rústica se contrasta com a modernidade dos automóveis. São séculos diversos coexistindo num mesmo tempo e espaço geográfico.

As pessoas.

Vários tipos e línguas confrontam-se na linguagem pura, que só busca o entendimento. O vento frio paralisa, justificando a calma do trânsito de pessoas e carros.

Não é preciso observar muito para sentir a diferença de atmosfera. E mesmo lugares nunca antes visitados confrontam-se com as memórias. Somam-se os lemas, o contos que a própria história ficou encarregada de narrar através dos fatos. E a torre. Sempre imponente a posar para fotos que correram pelo mundo todo. Aquela imagem já era eterna.

Havia rios e pequenos lagos. E, pela noite, luzes deslumbrantes que enchiam os olhos de alegria.

Para ser transportado de volta por breves momentos, bastava ler um pedaço de papel e pronto. Estaria sentado em um banquinho do outro lado do oceano, no calor. E foi então que se lembrou daquele gosto peculiar.

Aquele gosto que descrevia os mais belos jardins da cidade. Um gosto que outrora nem era apreciado, mas, que por ter tanto a ver com ela, tinha se tornado seu favorito. De repente, ao abrir a embalagem e levar o doce sabor à boca, relembrando os momentos, a letra da música e o cheiro, ele a sentiu perto.

Tudo ficou mais bonito: a cidade tinha o gosto dela.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Riding nowhere

Eu ando cansado.

Só queria voltar a um dia chuvoso como este, um dia perfeito. Um dia de preguiça, quando pude aproveitar os braços que sempre estão abertos para me acolher. Sair para passear sabendo que o único compromisso do dia é um jantar à luz de velas, com um vinho de boa safra nos esperando.

Quero aquela preguiça, com almoço descomprometido com direito a cervejinha pela tarde, vendo TV e deixando o sono chegar. E aquecido, vendo o frio lá do lado de fora, a gente escutava o barulho da chuva que caía devagar só para deixar tudo perfeito em detalhes. As cobertas eram nossa proteção contra o resto do mundo, e ali estávamos aconchegados, com a sensação mais atordoante que poderíamos ter.

Preciso de um dia de fuga, no qual a rotina não entre. E aquela sensação de ansiedade, com malas prontas para fugir e só voltar quando bem entender. Porque qualquer fuga é uma aventura. A pressa é grande para se chegar a um tão almejado destino, ao saber que lá não mais serei importunado. Contando dias, horas, minutos e segundos, até que finalmente um banho quente e a cama me digam que já cheguei.

Acho que não quero nada de espetacular. Quero um dia igual a este, só que melhor.

quarta-feira, 23 de março de 2011

As lovers go

Ela tem vergonha de receber buquês de rosas, encabula-se com pomposos ramalhetes em demonstrações públicas de afeto, mas sorri ao ver aquela rosa solitária, quase tímida com um quê de flor roubada no jardim.

Uma flor que em sua solidão faz tremer a mão do amante, e consegue mudar toda a atmosfera do ambiente só por estar lá e só. E, de repente, por ela existir e ser só, as vozes dos transeuntes desaparecem, tal qual os rostos e feições. Por ser só, eu a estou segurando e nada mais existe no mundo senão as palpitações do meu coração, e os movimentos do rosto dela ao me avistar.

E os espinhos da rosa não são mais ásperos, o perfume da flor importa menos que o dela.

Por um momento raro, com duas mãos segurando tal delicadeza próxima a meu corpo. E eu devo estendê-la, ofertá-la. Não como um grande conquistador, porque ela está só. Devo oferecê-la com timidez, quase querendo desistir de dar o presente. Não devo ficar orgulhoso do meu ato, nem agir com frieza. Tenho que ser atrapalhado, inseguro, e de certa forma inocente.

Sou eu e a rosa, e agora percebo que eu quem estou só. A rosa está muito bem, linda como sempre e exuberante. Protegida em sua fragilidade, expondo minhas mãos ao perigo.

Mas não deve ser difícil dar uma rosa.

Talvez se eu não dissesse, ninguém notaria que ela está lá. Acontece que eu disse, e isso muda tudo, muda o clima, o ambiente e o sorriso dela. Muda as palpitações do meu coração, e tudo aquilo que disse antes sobre os transeuntes. Mudam as cores. Muda a direção do vento que sopra minha nuca só para dar frio na espinha.

Então, enquanto estou estático, paralizado no meio do ato da entrega, ela faz a metade do serviço e pega a rosa das minhas mãos. E eu sorrio de modo comedido, sem orgulho, mas com alegria sincera. E ela sorri de volta como a mulher mais nobre do mundo, com gratidão e sutileza, mas que me deixa leve e grato por presenciar tal sorriso.

E tudo foi simples. Como tinha que ser.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Time

Leve como brisa, o tempo nos leva. Distraídos, a gente deixa se levar, de cabelos ao ar e sem pensar em nada. Não é tempo de ter os pés no chão, mas sim curtir esta sensação de não ter gravidade alguma nos pressionando contra o duro chão. Perdidos no tempo, podemos ser tudo e refazer todas as nossas escolhas. Não há linearidade, e sim uma sequência de fatos que organizamos a nosso bel-prazer, como um álbum de fotos ou vídeo editado, como cada frase de uma história que é escrita.

Assim é a vida, até o ponto onde temos controle de tudo, com fé inabalável e confiança de quem enxerga um tabuleiro de xadrez antevendo todas as jogadas de seu adversário. Você sabe que pode demorar, mas é uma questão de tempo até ter a coroa do outro rei aos seus pés. E, nesta hora, quando você tem o controle e dita as regras, colocando as peças onde quer sempre atingindo seu objetivo. Quando o coração palpita e você dá xeques com destreza, cada vez mais próximo da vitória... É nesta hora que a distração toma seu pensamento.

Aí a brisa vira tormenta, e o tempo não é nada menos do que tiques e taques na sua cabeça, em uma contagem regressiva para sua própria queda. A cada movimento desesperado, e por muitas vezes mal pensado, você tenta adiar o fim parando seu relógio e empurrando a pressão para seu adversário. De repente, os xeques estão contra o seu rei, e cada gota de suor é um cálculo que fugiu do seu pensamento e foi para o ralo. Um cálculo necessário, quase condicional para que não seja sua coroa tombada no quadriculado do tabuleiro.

E isso é a gravidade.

O suor caindo, um rei tombando, a leveza do ar virando pressão sobre nossos ombros. É a força do ponteiro correndo, o jogo se invertendo, o peso de um xeque contra você. É o botão do relógio que para e zera, e recomeça o jogo.

E a gravidade vira leveza de novo, nesta não-linearidade que é viver.