domingo, 10 de março de 2013

Pink

Era mais um dia quente de verão, tão quente que o asfalto parecia evaporar e queimar a sola dos sapatos. Mas ele não estava nem aí, apenas abriu a garrafa d'água, que também parecia suar, e tomou metade do seu conteúdo em apenas uma golada. Enxugou sua testa com as costas das mãos e parou encarando a avenida, à espera de que o semáforo segurasse os carros e permitisse sua passagem.

O relógio ainda nem marcava nove horas, mas aquilo parecia o sol do meio-dia. Talvez isso tenha fritado seus miolos, junto com aquela preguiça aconchegante de quem pouco dormiu, e ele começou a ver coisas. Entre os carros que iam e os que voltavam, os ônibus e caminhões, tratores e dromedários que trafegavam àquela hora, ele viu de longe um pequeno borrão que de alguma forma chamou sua atenção.

Levantou parcialmente seus óculos escuros para enxergá-la melhor, expondo sua retina ao azul tão claro do céu que mesmo fazendo de tudo para se mostrar de forma tão deslumbrante, ainda não conseguia ofuscá-la. E no espaço entre os veículos que passavam ele a paquerava, observando cada detalhe do seu jeito singular de se vestir, do seu corte de cabelo, e daquele sorriso inocente tão cativante.

Então finalmente o sinal parou os carros e estendeu seu tapete vermelho para que ele pudesse atravessar as duas pistas. Mas ele não conseguiu mover um músculo, parecia que sequer respirava. Imóvel, já com os óculos escuros postados novamente para disfarçar seu olhar fixo sobre a moça, ele observava como ela andava com graça enquanto o vento soprava seus cabelos no maior clichê que havia vivido até então. Ela foi se aproximando e diluindo o odor de monóxido de carbono exalado pela quantidade absurda de automóveis que transitavam naquela hora. Ele sentiu cheiro de banho fresco, de um perfume sutil e algo a mais que o hipnotizava a cada passo que ela dava.

Finalmente ela passou por ele, tão leve como se carregada por aquela brisa de verão. Ele quis olhar para trás, mas de repente achou que pareceria algum tipo de maníaco, se é que já não estava parecendo. Pensou por mais um segundo e resolveu seguir em frente, mas o sinal estava aberto novamente para os carros. Não havia outra escolha.

Virou-se e deu o primeiro passo atrás dela. Arrumaria algum jeito de descobrir quem era, ou talvez até pegar seu telefone. Ele era tímido, não fazia esse tipo de coisa, mas não podia deixar alguém como ela passar assim e ir embora. Deixou para trás todos seus medos e dúvidas. Totalmente movido pelo ímpeto, por uma vontade única de iniciar um diálogo, quase um desespero que vinha do seu âmago. Mas um desespero bom, que aquecia seu coração e dava esperanças. Não importava o que aconteceria dali para frente, o céu azul havia se tornado cor-de-rosa.

quinta-feira, 7 de março de 2013

Girls Girls Girls

Acorda ainda com um cheiro suave de perfume espalhado pelo quarto. Ela está lá, de olhos fechados e sorrindo numa paz que arranca um pequeno suspiro dele. Tem tanto capricho com os cabelos, mas mal sabe que o jeito que fica mais linda é assim: despenteada com os fios espalhados pelo travesseiro. Então ele debruça-se sobre ela e dá um sutil beijo no rosto, para não acordá-la. Em resposta, mostra sutilmente as covinhas de suas bochechas enquanto sonha. E isso faz o dia valer a pena.

Era um dia da semana qualquer. As outras crianças corriam pelo pátio, enquanto eles sentavam tímidos apenas observando as brincadeiras. Ele desliza vagarosamente uma mão em direção à dela, que responde enrubescendo-se. Corada, a menina só pensa em sair de lá, o puxa pelas mãos conduzindo-o até o corredor deserto. Os lábios se tocaram numa fração de segundos, bem sutilmente, e eles não falam mais nada. Cada um vira para um lado correndo, num momento que ficaria marcado para sempre em suas memórias.

Seu pai não pôde ir. Mesmo assim, ela estava sozinha lá na arquibancada, gritando o nome dele mesmo sem entender nada sobre o jogo. Estava cheio de si, era sua primeira final. Coisa besta, brincadeirinha de escola, mas dava sua vida por aquilo. Fez dois gols, comemorou bastante. Para ela bastava essa alegria, esquecia das contas, do aluguel atrasado e do marido desempregado. Foi quando veio uma pancada desleal e ele sentiu uma dor como nunca havia sentido. Ele nunca entendeu como aqueles braços tão delicados o carregaram sozinhos até o carro em tão pouco tempo. Depois disso, nem sentiu vergonha quando ela desenhou um coração em seu gesso.

Por mais clichê que pareça, foi a marca de batom que o entregou. Estava fazendo aquilo há uns dois anos, até que baixou a guarda e se descuidou. Ela chorou, falou um monte, teve nojo dele. Era boa demais, não merecia nada daquilo. Mas ele enxergou tarde demais: apenas quando, de malas prontas, ela anunciou que ia para a casa da mãe. Levou as coisas, mas ficou o perfume, ficaram as fotos, a cama vazia e a saudade. Junto com o táxi foi um pedaço de sua vida.

Queria ficar deitado para sempre naquele colo. Mal conseguia acreditar que um pedaço minúsculo de vida residia ali. Agora os dois formavam um trio. E logo estariam escolhendo nomes, indo a diversos médicos, pintando o até então quarto de hóspedes de azul ou rosa. A vida era linda, e ele deu um beijo mais que apaixonado no ventre dela por isso.

Fechou os olhos e viu seu rosto. Viu seu corpo. Os pequenos detalhes que a faziam maravilhosa: os delicados brincos, a sombra nos olhos que dava uma certa seriedade ao seu rosto, uma seriedade traída pelo seu sorriso. Era meiga, mas a camiseta largada com um corte mostrando o sutiã davam-lhe certa seriedade. Os jeans rasgados entregavam um pouco de sua perna tão delicada. Tênis encardido e batom, uma beleza pra lá de contraditória. Um dia ele a conheceria.

Foi o dia mais duro de sua vida. Depois de vinte anos estava indo para a rua da amargura. Os amigos o convidaram para afogar as mágoas na cerveja, mas ele dispensou. Correu pra casa com vergonha, com lágrimas nos olhos e desespero no coração. No caminho, mal prestou atenção no trânsito, mas seu anjo da guarda trabalhou para que chegasse bem em casa. Já havia anunciado a notícia pelo telefone, mas ainda assim tinha vergonha de abrir a porta. Hesitante para girar a maçaneta, de repente a porta abriu sem seu esforço. A pequena veio pulando em seus braços, o enchendo de beijos como o herói que sempre fora para ela, toda inocente. Então seu coração ficou cheio de coragem e ele entendeu que tudo ficaria bem.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Too young to fall in love

Ela estava sentada de frente para a rua, e desviava seu olhar dos olhos dele toda hora para apreciar a paisagem. Aquela era uma conversa nada agradável, e ela em sua inexperiência achava tedioso lidar com tudo aquilo. Não queria mais explicar nada, apenas queria decretar o fim. Um atestado de óbito e nada mais.

Por mais que os momentos tivessem sido lindos, ele nunca tinha sido nada demais. Foi sim, até certo ponto, bom pra ela. Mas apenas bom, não foi ótimo nem espetacular. Mediano, medíocre, uma chama quase apagada que nunca queimou em fogo ardente de paixão. E agora era hora de encerrar tudo aquilo, um relacionamento sem propósito, uma dupla que não se entrosava e apenas queimava o tempo e perdia preciosos minutos que podiam ser gastados em felicidade. Mas o maior problema era a aceitação.

A merda é que ninguém sabe perder. Mesmo as coisas sem valor, sem significado, as coisas pequenas e minúsculas que não valem mais porra nenhuma. Somos possessivos por natureza, e ele, rapaz mimado, sabia menos ainda perder. Ela era isso: mero capricho que ele não deixaria ir fácil. Mas era uma decisão que estava fora de suas mãos, e isso o frustrava.

Então ele pergunta várias coisas sem propósito, entre elas, quer saber quando tudo acabou. Ela nunca soube responder, pois não sabia se acabou na primeira briga. Ou se acabou naquele primeiro sábado em que quis ficar sozinha em vez de estar nos braços dele. Se acabou quando aquele colega passou uma cantada e por dentro sua vaidade brilhou. Se acabou quando eles ficaram com preguiça de se arrumar pra conhecer aquele bar novo e acabaram em casa vendo um filme dublado que passava na TV. Então, ela nada respondeu, e, antes frustrado, agora ele começava a ficar irritado.

Só tinha uma coisa a fazer: ela se levantou, pegou o isqueiro sobre a mesa e foi lá fora fumar um cigarro. Simples resolução de problemas, pois era na nicotina que ela fugia de tudo. Desde os 16 quando matava aulas pra acender um filtro vermelho, que hoje dá arrepios só de lembrar. Depois, uma desculpa para as aulas mais tediosas da faculdade, aqueles quinze minutinhos pra se defumar no terraço e arejar um pouco a cabeça com a brisa da noite. Aliás, tinha sido numa dessas que eles se conheceram, e a lembrança a fez rir: como a vida era cíclica.

Mas essa fuga seguida da risada o fez passar do estágio "irritado" pra "puto", e como todo garoto mimado, ele fazia merda quando assim ficava. Ela voltou mais aliviada, pronta para resolver o assunto com maturidade e serenidade, quando ele começou a despejar todas as merdas pra fora. Disse coisas que não se diz pra uma dama, mas talvez esse tipo de cara nunca aprenda a tratar uma mulher. E ela, por mais arisca que fosse, ainda no fundo era um ser dotado de sensibilidade e começou a chorar. Desmanchou-se em lágrimas, em uma dor tão profunda que esquecera a vaidade frívola de menina que não queria borrar a maquiagem. E não se importava mais se os outros olhavam, queria mesmo é que o mundo sumisse.

A verdade é que, por mais que o amor não tenha idade, ambos eram muito novos para se apaixonar. Ela ainda tinha tanta coisa pra viver, coisas que ele nunca poderia dar. Ele era mimado, possessivo, ciumento e imaturo. Ela era rebelde, instável, boca-dura e tinha uma sede de liberdade que só aumentava a cada restrição que aquele namoro impunha. E, soluçando em lágrimas, ela começava e enxergar o óbvio, o alerta que vários tinham dado e o quanto cega havia sido por tanto tempo.

De repente olhou para ele e odiava suas roupas, seu sorriso falso e seu jeito de convencido. Havia caído em seus braços por achar que ele era ousado e confiante, mas no fundo não passava mesmo era de um babaca. Suas roupas de marca que outrora foram traduzidas em sofisticação, agora para ela eram mera falta de estilo. E o perfume dele enjoava, embrulhando seu estômago junto com aquelas palavras nojentas que ele vomitava em forma de vingança.

Aliás, o rapaz ainda continuava falando, e a imagem mental que a garota fazia era de uma figura que vomitava merda, pastosa e fedida. E o asco aumentava, sua cabeça doía, o soluço não parava e as lágrimas não davam nenhum alívio. Então ela se levantou, deu um tapa na cara dele e deixou o pequeno café sem ao menos olhar pra trás. Para ela, esse foi o melhor momento daquele relacionamento.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

18 and life

De repente, ele era o dono do mundo. Empunhava uma garrafa barata de rum, tomando seu conteúdo no gargalo, arrastando-se no seu jeans rasgado e cozinhando no sol quente. O dia amanhecia, mas o sono ainda não tomava seu corpo. Enxergava apenas o resultado de sua embriaguez, um canto da boca sangrando da briga do dia anterior. Sentia dor nos nós dos dedos, mas carregava em si um pequeno riso de satisfação de quem havia levado a melhor. Sacou as chaves do bolso, pulou para dentro do conversível e ligou o motor. A vida era uma aventura que começava agora.

Horas depois, o cansaço finalmente cobrava seu corpo. No meio da estrada, sem ter onde dormir, entrou com o carro em uma pequena via de terra até achar uma grande árvore. Parou sob sua sobra, esticou os pés para fora e adormeceu com a garrafa repousando sobre seu peito. O sol forte não incomodava, mas seu estômago roncava clamando por alimento. Ele respondia com goladas de rum quente, sem ligar pra mais nada. Batia uma brisa gostosa, e nada no mundo podia pará-lo. Iria dirigir o conversível até que alguém descobrisse o que fez, ou até que a polícia o encontrasse.

Acordou apenas de noite, com a sinfonia de cigarras que parecia um serrote em sua cabeça. Finalmente, a ressaca havia chegado, ele precisava sair de lá. Ligou o motor, arrancou bruscamente e, de volta à estrada, jogou a garrafa no asfalto, pelo prazer de escutar o vidro quebrando.Dirigiu madrugada adentro, quando notou que precisava de gasolina. Parou no primeiro posto, mas não havia frentista. Apenas uma pequena loja de conveniência fechada, que ele não hesitou em invadir para saquear um pouco de comida. Lá dentro havia cigarros contrabandeados e uísque vagabundo, e era o que lhe bastava. Ele deu a volta e parou atrás do posto, onde ficou fumando até o tédio bater e ele resolver dormir. Acordou com as primeiras luzes do dia e voltou ao posto. Precisava abastecer, mas não tinha dinheiro.

Pediu para o frentista completar e dirigiu-se à loja de conveniência, novamente. A essa hora, o caos estava instaurado no estabelecimento. As pessoas chocadas com o estado em que ele tinha deixado as coisas: garrafas quebradas e comida pelo chão. Ninguém imaginava que aquele rapaz estranho de jeans surrados é que tinha feito tamanho estrago.

Ao entrar, ele notou que uma menina jovem limpava a sujeira. Era uma gracinha, e seus trajes modestos a deixavam ainda mais provocante. Rosto de menina, corpo de mulher bem torneado. Aquela camisetinha branca cortada deixando a barria à mostra, e o shorts jeans desfiado revelando duas magníficas pernas que não foram esculpidas em academia, mas sim tornaram-se pela pelo esforço diário do labor. O cabelo ocultando metade daquele rosto angelical revelava certa timidez.

Ele não sabia ao certo o que estava fazendo ali, só precisava pensar numa solução para não pagar a gasolina. E, pra piorar, aquela beleza singela fazia com que seu raciocínio ficasse mais lerdo ainda. O relógio estava andando, e ele sabia que precisava agir rápido e traçar um plano de fuga. Será que a polícia já estava procurando pelo conversível roubado? Será que seu rosto estaria estampado nos jornais em forma de retrato-falado?

Não dava para arriscar. Ele tinha uma vida inteira pela frente, uma grande aventura. Era assim que viveria, sem pensar no ontem nem no amanhã. E a bela menina seria sua parceira. Fugiriam juntos, ele precisava ser rápido e levá-la junto.

Havia uma caminhonete parada atrás da loja de conveniência, deveria ser do dono. Então, ele esperou as pessoas saírem, pegou uma garrafa e golpeou a cabeça do velho. Quando a menina virou-se para ver a cena, ele fez sinal para que ela ficasse quieta. Roubou a carteira do senhor que agora estava desacordado, pegou as chaves no seu bolso, mais bebida e mais cigarro, e forçou a menina a entrar na caminhonete. Fugiu mais uma vez.

A garota chorava, e pedia para ir embora. Ele virava o uísque barato e não queria saber de mais nada. Andava sem rumo, sua refém não parava de chorar. Irritado e embriagado, ele dava bofetadas na cara dela, mandando-a calar a boca. Ela cuspiu em sua cara, então ele parou o carro bruscamente e a beijou à força. Começou a ir pra cima, rasgando a camisetinha dela que, envergonhada, tentava proteger os seios de sua visão. Estavam no meio da estrada, com um veículo grande, ao longe sons de sirenes. Quando escutou, ele ligou novamente a velha caminhonete e acelerou. Uma mão no volante, a outra na garrafa. Estava cansado e bebia mais e mais.

Um animal na estrada.

Ele nem conseguiu ver o que era. No reflexo, jogou o carro para o lado e a última coisa que viu foi uma árvore. Acordou com o cheiro de sangue, não havia mais beleza. Não havia mais garota, apenas um corpo e sirenes. Enquanto era algemado, ele ainda acreditava que sairia daquela. Afinal, tinha apenas 18, e uma vida inteira pela frente.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

You are not alone

Até hoje eu olho para a cicatriz. Feia, saltada sobre minha pele. Marcada num risco, marcada pelas linhas que entraram para costurar de volta aquele buraco. Se fecho os olhos, ainda posso sentir a dor, e minha respiração fica ofegante novamente. Como um filme, vejo tudo acontecendo lentamente, mas não consigo mudar a ordem dos fatos mesmo usando muito da minha fértil imaginação. E, por um instante, eu me odeio, sabendo que um dia mereci punição mais forte do que a que tive. Sabendo que não poderia reclamar se o mundo me fosse mais cruel, e que a piedade do destino é uma cobrança de dívida eterna com minha consciência.

Quando volto desse devaneio, sinto-me novamente vivo. Mais do que nunca eu sei que a vida é uma dádiva, e que cada segundo que avanço no tempo por si só é uma conquista. Há muitos momentos em que achamos que nossos sonhos estão para sempre enterrados, é quando descobrimos que existe sim um fim. E o gosto amargo da bile vem à nossa boca, o desespero espalha como neblina em nossos pensamentos e a razão se dissipa. Por sorte, descobrimos diversas vezes que estamos errados.

Tal qual uma pequena cicatriz me traz essas memórias, olhando para as falhas remendadas que existem dentro de mim eu consigo enxergar outros incidentes em que a última fronteira parecia próxima. Às vezes a gente acha que falha apenas por deixar uma lágrima cair. Outras vezes nossa falha é algo muito mais sério e embaraçoso. Eu já vivi essas duas situações e sei que, em diversos casos, eu não pedi ajuda cara a cara. Alguns dos melhores diálogos foram lado a lado, ambos olhando para o horizonte, talvez projetando lá algo que estava sendo dito. E cada pequena falha minha assim foi remendada.

Você que me conheceu em dia estranho e noite de bar. Você que ouviu meu desabafo antes que me sufocasse com minhas próprias palavras, que teve paciência de escutá-las mesmo quando tudo soava demasiadamente dramático. Você que entornou um copo comigo, que riu na embriaguez e que me deu um abraço forte de despedida mesmo sabendo que nos veríamos em breve. Você tem esse poder mágico de cura, e, por isso, celebraremos à vida. Sem separar os bons dos maus momentos, porque são minhas falhas que mostram o que tenho de melhor.

Eu não tenho mais vergonha de falar que tive medo. Até quando desafiei aos outros, até quando fui moleque petulante e irresponsável. Nem eu sei como algumas coisas deram certo, mas eu arrisquei e arrisquei alto, e ninguém pode falar que não sei jogar, porque fui até o extremo. Eu também não tenho mais vergonha de falar que tive dores bobas. Que a rejeição já me estragou uma noite, salva por um braço amigo que me arrastou até o lugar que me fazia mais feliz e me fez olhar pro céu, entendendo como tudo aquilo era pequeno e como ainda havia espaço para brilhar.

Aí eu volto para a realidade e vejo que não é uma história só minha. E como em cada parte de mim existe um conto a ser contado, cada qual com seus personagens. Eu percebo quantos segredos compartilhei e como cada um deles ficou mais leve depois disso, e que o verdadeiro alívio é poder confiar em alguém.

Tanto tempo depois e as memórias ainda estão aí. E quando eu vejo que ainda gosto daquela música imbecil, ou quando eu lembro dos acordes de uma canção que só escutei algumas vezes há muito tempo atrás, percebo como cada detalhe é importante para compor o enredo das nossas vidas. Neste tortuoso roteiro, mais reviravoltas estão por vir, e o balde de água fria espera para desmanchar meu riso de satisfação com tudo.

Mas eu quero celebrar. Quero celebrar porque a gente chega onde quer, mas acaba parando num lugar que nunca imaginou. E isso pode ser chamado de felicidade.

Há pequenas decisões que refletem em grandes conquistas. Cabe a nós desfrutar dos resultados, sempre brindando, como um ritual de agradecimento por tanta generosidade. Mas minha garrafa procura várias taças para encher, e eu quero escutar o brinde em coro, enquanto sinto uma brisa trazendo as mudanças.

Nem tudo é festa, e eu sei que coisas difíceis podem estar por vir. Mas a vida é boa e eu serei cada vez mais feliz, porque tenho em mim convicção, e isso basta para eu nunca parar. E, quando as forças me faltarem, eu sei que algumas mãos me puxarão de volta para o caminho certo. Eu sei que de pouco em pouco construí algo grande que me sustenta e não me deixa chegar ao fundo do poço. Como num brinde, posso escutar um coro de voz me dizendo: "você não está sozinho".

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

The ace of spades

Depois que aquela cadela me deixou encrencado com os seguranças do bar e sem meu relógio, eu fiquei mais casca grossa ainda. Se você nasce com um pau, não pode vacilar nunca na vida. O pau te faz macho, mas é uma fraqueza: uma mulher na jogada pode foder tudo e eu acabei caindo na cilada. Sou um cara que sempre aposta alto, não posso ceder assim. E, nesse dia, depois de liberar uma grana e amaciar os seguranças com muita lábia e scotchs, eu decidi que não me abalaria. Ainda recuperaria meu relógio. Era tudo sobre a porra do relógio.

Deu uns dias e eu tava lá, num inferninho que eu sempre ia, que fedia a charuto barato e o couro dos sofás era todo manchado. Duas loiras deliciosas se insinuavam para mim, uma de cada lado, mas eu estava focado. Numa noite em que eu desejei mais que elas se fodessem do que fodessem comigo ao mesmo tempo. Reparei que tinha um rapaz meio punk novinho acendendo um baseado, e já fui dando um tapa na orelha dele. Esses imbecis sempre se acham os delinquentes acendendo o baseado em qualquer biboca, mas é só tomar uns tapas que de punks eles viram hippies. E eu não tenho saco pra hippies.

O viadinho queria mesmo era chorar pra mamãe, mas ele sabia que tava num canto sem leis. Um lugar onde a lei era ser macho, e nesse quesito ele não tinha vez comigo. Acabou vazando na primeira encarada, eu tomei seu lugar naquele imundo sofá. A noite passava e uma morena tentou sentar no meu colo, mas eu recolhi a perna e deixei a vadia cair no chão com drink e tudo. Duas outras meretrizes a ajudaram a levantar, sem sequer conseguir olhar na minha direção. Foi então, nessa bagunça toda, que chegou quem eu esperava.

Ele parecia uma caricatura de filme, com aqueles colares grandes e pesados, cara de bicheiro. Perdia muito dinheiro no pôquer, mas ganhava muito nas ruas. Basicamente sua atividade era pegar os bens que os viciados roubavam por aí e dava uns trocados pra eles fumarem ou cheirarem. De vez em quando vinha uma correntinha de ouro ou um colar de pérolas, alguma relíquia de família e coisas assim, que valiam uma grana. E daí vinha seu real talento: ele conseguia fazer rolo por coisas "limpas" que também valiam grana, e no final tirava um trocado filho da puta. Era capaz de vender a mãe por dinheiro, e eu sabia que era envolvido em várias outras atividades ilícitas por aí. Mas foda-se, isso não era problema meu.

Ele riu e encheu meu copo com um uísque barato que eu tomei só porque era de graça. Se fosse um filho da puta qualquer, teria jogado o conteúdo do copo na cara do imbecil. Mas eu tinha um interesse, então falei pro corno sentar, ele tava rindo pra caralho porque viu a mina cair e disse que, ao ver o burburinho, sabia que era coisa minha. Perguntei se ele se sentia com sorte naquele dia, porque ele sempre respondia a mesma coisa: que sim. E não falhou: ótimo sinal para mim.

Perguntei de um relógio. Ele sorriu, um dente de ouro aparecendo. Puxou a manga daquela camisa ridícula, e mostrou o pulso. Merda! Ele tinha mal gosto mas sabia o que era valioso. O que me dizia que não seria fácil recuperar a porra do meu relógio.

Esperei a hora do jogo. Mesa cheia. A merda era essa: eu não podia eliminá-lo prematuramente, mas alguém poderia fazê-lo por mim. E aí ficaria foda pegar o que era meu de volta. Pra minha alegria, o filho da puta estava mesmo com sorte, mas eu conhecia seu jogo. Saí quando senti que ele estava com a mão boa, mesmo sabendo que a minha seria imbatível. Assim, ele eliminaria o resto e se sentira confiante. No final, ficamos só nós dois na mesa, mas minha pequena desvantagem logo desapareceu: eu estava ganhando.

O flop estava uma merda. Eu tinha uma dupla na minha mão. Uma dupla de ases. Fiz cara de que não tinha nada, e aumentei a aposta. Ele achou que era blefe, claro, e pagou. Chegou o turn. Um valete. O filho da puta soltou um sorriso que eu sabia que ele tinha uma dupla de valetes na mão. Eu tinha mais fichas, então, apostei tudo. Era muita grana, ele não conseguia cobrir a aposta, mas sabia que era questão de honra me liquidar. Eu dei uma provocada, falando que ele não conseguia cobrir, então ele mordeu a isca. Ofereceu o relógio na mesa e eu aceitei. Tudo estava valendo naquela hora, meu relógio, minha reputação, meu orgulho. Foi então que a última carta deu as caras: um às de espadas.

Eu sorri. Mostrei as cartas, sabendo que ele não bateria meu trio. Quando os dois valetes se juntaram ao da mesa minha vitória foi confirmada. Ninguém era páreo para mim, eu jamais vacilaria novamente. Nem pensei em contar as fichas naquela hora, peguei o relógio e coloquei no pulso. Enquanto o abotoava, percebi algo estranho. A sala se esvaziou, as cortinas foram fechadas e o perdedor ainda me encarava. Senti uma presença atrás de mim, então o cheiro daquele perfume me fez parar.

Uma voz inconfundível sussurou no meu ouvido, me parabenizando pela vitória. Eu queria arrebentar a cara da vadia, mas algo me fez parar. Foi então que eu entendi. O relógio não era coincidência. Ela sentou no colo do meu adversário, e os dois riam. Além de pegar travecos, o filho da puta havia armado pra mim. Ele deslizou a mão e eu sabia que não era pra pegar na bunda dela. Virei a mesa sobre eles, me joguei no chão e puxei meu canivete. Quando ele alcançou a arma, eu já rasgava seu pescoço. A vadia da travesti correu, e eu sabia que se não saísse pelos fundos viraria presunto. Mais uma vez, ela se safava e eu ficava com o prejuízo. Decidi que não. Peguei a arma do perdedor, entrei no salão e abri um rombo na cabeça dela. Merda. Eu havia vacilado pela segunda vez naquela semana.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

The Jack

Eu sabia que ela blefava. Porra, dava uma de menina carente e sem atenção, ficava se queixando da vida, mas vivia lá, dando a cara a tapa. Alguns caras decentes já se aproximaram com boas intenções, mas eu conheço o tipo: eles nunca tiveram chance. Ela fazia carinha de triste, e tudo aquilo era charme. Sua maneira de conseguir atenção, um mecanismo de defesa que havia funcionado durante anos. Já conheci muitas mais belas, mas aquela mulher tinha algo de especial. Algo de irritante mas um tom arisco que me fazia ter vontade de dominá-la. Merda, eu sabia que cederia.

Naquele dia eu tomava dois dedos de um escocês e a vi se aproximar do bar. Bloody mary. Clichê, mas achei que ela tinha mais personalidade do que as garotas que pediam cosmopolitan. Ela sabia que grande parte do bar parava para apreciar sua presença, e fazia questão de ser provocante com sua bebida. Caralho, ela sempre sabia a mão que tinha e jogava bem com isso. Mesmo eu que estava tentando ignorá-la dei uma espiada para ver o que tanto fazia todos os pescoços do bar se virarem: um vestido simples vermelho, mas que inspirava a todos um sentimento mais lascivo do que os da mulher que tomou vinho com seu amante. Então ela se apossou do banco ao lado do meu, e, sem sequer olhar na minha cara, disse uma frase qualquer, irônica. Eu estava no jogo.

A vida inteira eu tentei não ser feito de trouxa. Acabei virando um tremendo de um vagabundo, desses que consegue encantar uma mulher, conseguir o que quer e cair fora antes que ela tenha qualquer ideia de compromisso. Eu fazia isso bem, mas por mais canalha que fosse, havia uma certa ética com o meu procedimento. Ora, você pode perguntar a qualquer uma delas se não as tratei como princesas enquanto tudo corria bem. Porque eu sei tratar uma mulher, e assim como sei o que quero, sei de tudo o que elas querem. Sou exímio amante, mestre em escutá-las, e, além de tudo, meu ótimo gosto sempre fez com que as levasse nos melhores hotéis e restaurantes. Mesmo que não me importasse com elas, fazer tudo isso e fazer bem era uma questão de ego, de orgulho. De certa forma sei que fui inesquecível, e que uma mulher que se deita comigo uma vez o repetirá quando me convir. Eu sou esse tipo de cara.

Mas voltando ao bar, nem me recordo o que estava pensando naquele dia, nem o raciocínio que me conduziu a fazer aquela cagada. Eu sempre fui foda no jogo, e, assim, eu a fazia aumentar sua aposta: estava tudo realmente interessante. O melhor de mim conseguia levar bem a situação, e ela estava no terceiro drink enquanto eu nem havia importunado o bartender novamente. A trilha sonora era bizarra por sua composição, alternando entre jazz, soul e salsa. Perfeita para uma noite que não fazia sentido, na qual aquela mulher de batom e vestido vermelho parecia ficar embriagada, e eu parecia cada vez mais no controle da situação.

Fomos para um sofá no lounge mais escuro do bar. Apenas iluminado pela luz baixa de um abajur, não havia nada mais intimista do que aquilo. Ela havia trocado os bloody marys por uma taça de vinho, e eu ainda tomando um bom scotch sem gelo, apenas para molhar a boca e continuar o papo. Ela ria de todas as minhas piadas, e eu não sou uma merda de um cara engraçado. Nunca fui bobo da corte para mulheres, mas sou dotado de uma porra de uma ironia que diverte as pessoas. Eu não acho graça, mas ela ria, ria e mostrava os pulsos, e tirou um cigarro da bolsa segurando-o por muito tempo. Aquilo me deixava impaciente, mas que caralhos ela queria, fumar lá dentro? Seria tão transgressora assim?

Com o cigarro em mãos, ela se aproximou e falou no meu ouvido, de um jeito sensual e dúbio. Apenas me avisou que iria lá fora fumar, mas eu sabia que era um convite. Eu sempre fui foda, havia ganhado o jogo de novo. Era hora de ganhar todas as fichas da mesa, de submeter aquela dama de copas e levá-la para meu apartamento. Apenas por umas horas, a dispensaria pela manhã.

Lá fora, ela encostou na parede e ficava fazendo charme. Eu fazia questão de diminuir o espaço entre nossos corpos, ela se mostrava um pouco evasiva e depois deixava. Consegui a distância suficiente para um beijo, e ela começou a morder meus lábios, me puxar com força, passar a mão em todo meu corpo e a coisa ia ficando quente que eu nem sentia mais nada. Foi então que, em um ímpeto, apertei meu corpo contra o dela e senti aquela coisa. A porra da dama de copas era um valete. Chocado, olhei com fúria e ódio para ela. Ela soltou meio riso, e, logo após, gritou alto. Gritou que eu abusava dela, e os seguranças vieram pra cima de mim. Enquanto tentava me explicar, ela saiu tranquilamente no seu salto, chamou um táxi e entrou. Foi então que eu senti meu braço mais leve e meu relógio não estava mais no meu pulso. Vi o táxi indo embora e só consegui pensar em uma coisa: filha da puta!